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B
R A S I L
Caro Chico
Carta de Cacciola explica o favorecimento
ao Banco Marka e compromete o ex-presidente do Banco Central Francisco
Lopes
DANIEL STYCER
O círculo se fecha. O elo que faltava para
unir o nome do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes a
Salvatore Alberto Cacciola, dono do Banco Marka, está nas
mãos do Ministério Público Federal. Trata-se
de uma carta escrita de próprio punho pelo ex-banqueiro e
endereçada a Lopes, obtida com exclusividade por ISTOÉ.
Nela, Cacciola expõe todo seu desespero diante do prejuízo
que o Marka teria com a desvalorização cambial que
se acelerou a partir de 13 de janeiro, dia em que o próprio
Lopes assumiu o posto de Gustavo Franco, enterrou a âncora
cambial e criou a malfadada banda larga de varia-ção
para o dólar, que resultou no ataque especulativo ao real.
É um apelo dramático para que o homem-forte do BC
interceda junto ao então diretor de Fiscalização,
Cláudio Mauch, e o convença a vender dólares
ao Marka pelo valor de R$ 1,25, uma cotação de pai
para filho. "...Preciso de uma, muito maior, interferência
sua no sentido de Mauch ser menos rigoroso e aceitar a negociação
em um preço razoável", escreveu Cacciola, demonstrando
um grau de intimidade no mínimo estranho entre um agente
financeiro e o presidente da instituição que deveria
fiscalizar o mercado. E mais: afirma que, resolvida a questão,
abandonaria o ramo - "... para recomeçar minha vida
e esquecer tudo". As duas últimas palavras estão
sublinhadas, numa promessa de enterrar o passado e todos seus segredos.
A referência a Mauch deve explicar seu curioso pedido de demissão
em 15 de janeiro - e o imediato retorno ao cargo no mesmo dia. Na
ocasião, ele alegou motivos pessoais. "Cacciola pode
até ter me procurado, mas eu nunca falei com ele. Nunca o
vi", afirmou o ex-diretor do BC a ISTOÉ. Sem confirmar
a cotação almejada pelo Marka, Mauch disse que a decisão
foi tomada em conjunto por toda a diretoria. Perguntado se, em algum
momento, Francisco Lopes lhe pediu que fosse "menos rigoroso",
o ex-funcionário do BC se esquivou: "Não vou
responder. Vou depor na CPI e não ficarei falando sobre esse
assunto agora. Também não vou dizer grandes novidades
lá." Para irritação dos parlamentares,
foi assim - sem muitas novidades - que começou para valer
a CPI dos Bancos, na quinta 15, com o depoimento do atual presidente
do BC, Armínio Fraga. Ele chegou com uma pilha de documentos,
300 páginas de cópias de recibos, cartas, comprovantes,
tabelas e textos explicativos, mas poucas revelações.
O máximo de crítica a que se permitiu foi considerar
uma "aberração" o excesso de concentração
nas mãos do Marka das operações no mercado
futuro de dólar - aquele onde as instituições
financeiras apostam quanto estará valendo a moeda americana
numa determinada data. Um claro puxão de orelha na Bolsa
de Mercadorias & Futuros, a BM&F. O banco tinha 12.650 contratos
que representavam US$ 1,2 bilhão. Fraga nem sequer admitiu
o prejuízo de US$ 1,1 bilhão que o BC tirou das costas
de Cacciola ao vender dólar no mercado futuro pela amigável
taxa de R$ 1,2750.
Enquanto a CPI ouvia o presidente do BC, o Ministério Público
Federal tinha mais sorte em suas buscas no Rio. Naquela quinta 15,
agentes federais e procuradores da República vasculharam
as sedes dos bancos Marka e FonteCindam, que também foi socorrido
pelo BC, e as residências de seus presidentes: Salvatore Alberto
Cacciola e Luiz Antônio Gonçalves. A operação
conjunta atingiu ainda o economista Rubem Novaes, acusado de ser
o intermediário de um suposto esquema de corrupção,
que vazaria informações privilegiadas do BC para instituições
financeiras cariocas. Na casa de Cacciola, num condomínio
de luxo na Barra da Tijuca, a polícia encontrou uma escopeta
12 mm, munição e um coldre de arma de menor porte,
além da comprometedora carta para Lopes. ISTOÉ submeteu
o manuscrito ao exame do perito Mauro Ricart, profissional com 28
anos em perícia grafotécnica, que dirigiu o Instituto
de Criminalística e o Departamento de Polícia Técnica
Fluminense. Depois de comparar a mensagem com outro documento em
que aparece a letra de Cacciola, Ricart confirmou sua autoria: "Com
o material que me foi apresentado, encontrei diversas convergências
gráficas que, apesar de se tratar de cópia xerox,
pelo aspecto formal de determinadas particularidades, apontam o
punho de Cacciola como provável autor dos dizeres do manuscrito.
Mas para expedir um laudo definitivo só posso me manifestar
depois da apresentação dos originais."
Mais um revés para Cacciola, que retorna ao País nesta
segunda 19, depois de uma temporada de exílio voluntário
na Itália. De lá, também por escrito, enviou
sua versão dos fatos a alguns meios de comunicação.
"Nunca estive com o senhor Francisco Lopes", garantiu.
Nem precisava. A julgar pela correspondência encontrada, seu
relacionamento com o ex-presidente do BC dispensava encontros formais.
"Temo o justiçamento sem apuração",
disse ao jornal Folha de S. Paulo. O ex-banqueiro é esperado
às 10 horas para depôr na sede da PF no Rio. Enquanto
isso, ISTOÉ apurou que ele passou para o nome da mulher a
mansão de Angra dos Reis, avaliada em US$ 1 milhão.
O cerco também começou a fechar em torno do ex-presidente
do BC, Francisco Lopes. Às 13 horas da sexta 16, uma patrulha
da PM foi alertada por moradores da Rua Sá Ferreira, em Copacabana,
de que vários homens armados cercavam o prédio número
143. Logo de saída, os policiais foram informados de que
não se tratava de nenhum assalto ou tentativa de seqüestro,
apenas mais uma operação da PF no caso Marka. Cerca
de 12 agentes, acompanhando o procurador Bruno Acioly, chegaram
na residência de Lopes, com mandado de busca e apreensão
concedido pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª
Vara Federal. Na residência, encontravam-se apenas uma empregada
e Ciça Pugliese, esposa de Lopes. Como demoraram para abrir
a porta, os agentes chegaram a chamar um chaveiro. Aos prantos,
Ciça telefonava para o marido, que estava em Brasília,
depondo às escondidas à comissão de sindicância
do BC. Ele disse que abrissem a porta e deixassem revistar à
vontade. O apartamento estava repleto de caixas fechadas, resultado
da mudança recente da família de Brasília para
o Rio. O procurador e os agentes federais trabalharam durante toda
a tarde na procura de documentos comprometedores. De lá,
a equipe saiu para dar uma batida na Macrométrica, consultoria
financeira criada pelo ex-presidente do BC. Lopes estava distante
1.150 km do Rio, tinha entrado no prédio do BC por uma porta
de serviço e prestava explicações numa sala
de reuniões do oitavo andar. Curiosamente, disse que quem
levou o socorro ao banco Marka para apreciação da
diretoria foi o ex-diretor de Fiscalização Cláudio
Mauch. Lopes volta a ser alvo de uma batelada de perguntas na segunda
19, agora na CPI dos Bancos. Mauch faz o mesmo na terça.
Eles têm muito a explicar.
O Fonte aparece
Enquanto o presidente do Banco FonteCindam, Luiz Antônio
Gon-çalves, concedia esta entrevista a ISTOÉ, na quinta
15, a Polícia Federal retirava documentos da sede do banco,
no Rio. Gonçalves, no entanto, parecia calmo, estava empenhado
em diferenciar sua operação de socorro da que foi
realizada pelo Banco Marka.
ISTOÉ - Como o banco recorreu ao BC?
Luiz Antônio Gonçalves - O banco tinha, de fato, uma
posição vendida em dólar nos mercados futuros.
Nós achávamos que não haveria mudanças
de política cambial pelo menos até fevereiro.
ISTOÉ - Eram cinco mil contratos que somavam algo entre US$
500 milhões e US$ 600 milhões?
Gonçalves - O banco tinha uma posição própria
de 2.600 contratos em dólar, que representariam US$ 260 milhões,
e os fundos que administrávamos tinham cinco mil contratos,
cerca de US$ 500 milhões. Por quê? O banco vinha tradicionalmente
fazendo uma aposta, de anos, de que o governo sustentaria o real.
ISTOÉ - Mas a partir de 11 de janeiro ocorreram perdas diárias
nas reservas da ordem de US$ 1 bilhão.
Gonçalves - Ao mesmo tempo, o BC continuava a vender dólar
nos mercados futuros, defendendo o real. O BC sempre fez isso, na
crise da Ásia em 1997, na russa em 1998, e não perdemos
dinheiro nesses episódios. O que aconteceu no dia 13? Acordamos
com a manchete da saída do Gustavo Franco e a instituição
da política de bandas. Ficamos num córner: não
tínhamos liquidez no mercado para tentar buscar dólar
ao preço que fosse possível e liquidar as posições.
Qual a saída? Ir ao BC e comprar dólar. É importante
lembrar que o BC vendeu, nos dias 13 e 14, alguns bilhões
de dólares para ver se a banda de R$ 1,32 funcionava.
ISTOÉ - Por que não fez isso?
Gonçalves - O próprio Armínio explicou no seu
depoimento: "O FonteCindam tinha a alternativa de comprar o
dólar, mas o BC optou por vender o dólar futuro para
não afetar as reservas." E qual o cálculo que
o BC fez? Viu a quanto o dólar estaria em 1º de fevereiro
se a política instituída no dia 13 estivesse dando
certo. O valor seria R$ 1,3217. Compramos a R$ 1,3220.
ISTOÉ - Como foi o contato com o BC?
Gonçalves - Eu fiz uma ligação para o presidente
do BC (Francisco Lopes), no dia 13 ou 14, não estou bem certo,
e ele me remeteu para o diretor de Fiscalização, o
Cláudio Mauch, que conduziu o assunto. Não saí
do Rio. Com o Mauch, falei no dia 14 várias vezes.
ISTOÉ - O seu colega de diretoria Eduardo Modiano, ex-sócio
do Chico Lopes, não participou?
Gonçalves - Ele estava em Paris, negociando nosso acordo
com o BNP. Essa acusação de informação
privilegiada é de uma fantasia tão acentuada...
ISTOÉ - Mas o mercado sempre busca as informações
privilegiadas, não?
Gonçalves - Pode ser. O mercado nunca acredita que alguém
ganhou ou perdeu por competência ou incompetência própria.
Se é competente, o mercado tende a achar que ele teve informação
privilegiada.
ISTOÉ - Não é de causar estranheza o FonteCindam
permanecer na sua aposta antidesvalorização com tanta
convicção, a despeito de um comportamento generalizado
do mercado que começava a mudar de lado?
Gonçalves - Convicção pode existir em função
de acertos no passado. Aí você fala: "Houve a
moratória do Itamar." Tá bom, eu subestimei.
Não valorizei o fato de ele ter sido, na visão do
estrangeiro, o governador de um dos Estados mais importantes da
Federação, um ex-presidente da República, que
elegeu FHC e fez o Real.
ÁLVARO ALMEIDA E AZIZ FILHO
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