![]() 23 de setembro de 1998 |
![]() O doce sabor da tubaína Mais baratos, os refrigerantes regionais ganham mercado e chegam a atrapalhar vendas de gigantes como a Coca-Cola
LÁSZLÓ VARGA Todos os dias o vendedor ambulante João Santana percorre as ruas de São Paulo com uma geladeira de isopor nas costas forrada de refrigerantes. Quando o calor aperta, chega a vender 110 latas. De Coca-Cola? "De jeito nenhum. Meus clientes querem mesmo Bacana sabor laranja ou limão. Vendo 90 latas, mas ganho pouco dinheiro com elas. Preferia trabalhar só com a Coca", reclama Santana. O Guaraná Bacana é um exemplo da invasão dos refrigerantes populares regionais, conhecidos como tubaínas. A razão é simples: custam mais barato. Uma lata do Bacana, por exemplo, sai por R$ 0,33 para os ambulantes, que a revendem a R$ 0,50. Já uma Coca-Cola custa R$ 0,50 e é comercializada por R$ 1 nas ruas. Nestes tempos bicudos de desemprego e pouco dinheiro no bolso, consumidores de todo o Brasil estão abrindo mão das marcas famosas para economizar. As vendas das tubaínas já respondem por 27,5% do mercado, segundo a empresa de pesquisa Nielsen. Ficam abaixo apenas das 15 marcas sob o guarda-chuva da Coca-Cola – Fanta, Sprite, Kuat, entre outras –, que somam 47,7%. Não é por menos que em agosto ela acionou o alarme e guindou seu presidente no Brasil, Luiz Lobão, para o posto de vice-presidente na América Latina, uma promoção com gosto de rebaixamento. O fenômeno das tubaínas tem ajudado muito a impulsionar as vendas de refrigerantes. No ano passado, os brasileiros beberam 10,4 bilhões de litros. Em 1998, o volume deve atingir 11 bilhões. Em Boituva, no interior paulista, o pessoal da Refrigerantes Conexos, dona da marca Bacana, é só sorrisos. "Quando compramos a fábrica em 1986, produzíamos 840 mil litros anuais. Hoje respondemos por 12 milhões de litros", festeja o gerente comercial, Gilberto Gedaile. A Conexos pertence ao grupo Momesso, proprietário de mais duas fábricas de tubaínas, incluindo o Vedete, outro sucesso. Boa parte das tubaínas hoje é envasilhada com tecnologia de ponta e até as grandes redes de varejo já se renderam à tendência. Supermercados como o Sé, Wal-Mart e Makro vendem marcas próprias. O Pão de Açúcar criou o guaraná e o limão Brasil, que no verão passado foram líderes de vendas na sua categoria na Grande São Paulo. As tubaínas viraram uma tremenda dor de cabeça para os grandes fabricantes. "Elas têm qualidade inferior e trabalham com ingredientes mais baratos, como açúcar menos refinado", afirma o diretor de marketing da Antarctica, Carlos Alberto Poletini. "Mas não podíamos ignorá-las, sob o risco de perder posição no mercado." A companhia investiu R$ 5 milhões para aumentar as vendas de bebidas como Baré Tutti-Frutti, Baré Cola e Cola Geneve, marcas de fábricas adquiridas pela Antarctica que estavam meio abandonadas. Agora, elas respondem por 8% dos 75 milhões de litros de refrigerantes vendidos por mês pela empresa.
No cadastro da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes (Abir), existem 34 indústrias de refrigerantes independentes. No entanto, o número real é muito superior. A Antarctica estima que haja quase 500 empresas do tipo no Brasil. Desde aquela pequena fábrica de fundo de quintal – que usa vasilhames de cerveja, processo usado pela famosa Tubaína, refrigerante vendido no interior paulista que deu origem ao termo – até companhias muito bem-estruturadas. O Grapette é uma das marcas mais famosas entre os refrigerantes menores. Apesar de ser patente americana, a América Latina é seu principal mercado. A indústria de bebidas Pakera, no Rio de Janeiro, atua como uma das licenciadas para produzir o refrigerante de sabor uva. Acaba de lançar a versão diet. Sua trajetória é meio confusa. Começou com sabor framboesa há 50 anos, depois passou a ter concentrado artificial de uva e recentemente adotou o suco de uva natural como um dos principais ingredientes. "Vamos conquistar mais consumidores", aposta o gerente-geral Cláudio Rodrigues. A Pakera produz também o guaraná Pakera, Crush, Gini Limão e Gini Cola, sendo que as três últimas marcas são franqueadas da americana Cadbury Schweppes. Licenciamentos de refrigerantes multinacionais, no entanto, são uma tremenda exceção. A maioria das tubaínas é mesmo produzida com fórmulas brasileiras, muitas vezes com ervas locais. É o caso do Mineirinho, fabricado em Niterói, que utiliza concentrado da planta chapéu-de-couro. No Maranhão, um dos maiores sucessos é o Guaraná Jesus, refrigerante que apesar do nome é cor-de-rosa e tem um sabor que lembra o de canela. Criado em 1920 pelo farmacêutico Jesus Gomes, hoje é ironicamente envasilhado pela Companhia Maranhense de Refrigerantes, uma franqueada da Coca-Cola. "Ele tem 22% do mercado do Estado. Só perde para a Coca-Cola, que detém 60%", afirma o vice-presidente executivo da companhia, Benedito Lago Neto. O refrigerante virou mania e tradição no Maranhão. Cerca de 9,5 milhões de litros são consumidos ao ano. O volume deve dobrar em 1999, com a inauguração da terceira fábrica da Maranhense. A Coca-Cola, que liberou a companhia para produzir o Guaraná Jesus, assiste calada ao avanço. Mas pode se cansar e colocar em xeque projetos de tubaínas. Tudo para garantir seu domínio no mercado das borbulhas.
| ||||
|
![]() | |||||