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Em
pouco menos de 50 anos, os computadores deixaram de ser aparato
da indústria bélica, sempre em busca de armas e tecnologias
de espionagem à prova de inimigos, para se tornarem objeto de
decoração nas residências, onde servem de instrumento
de pesquisa e entretenimento para toda a família. Essa revolução
silenciosa alterou a dinâmica da sociedade e promete grandes
mudanças na política, nas artes, na economia, no relacionamento
entre as pessoas. Ao criar uma forma de negociação entre empresas
e consumidores sem a figura do intermediário, a Internet trouxe
o combustível necessário para a explosão do comércio online.
Mesmo quem não tem computador e nunca navegou pela Internet
participa da sociedade digital.
Reprodução

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Os circuitos eletrônicos são quase
onipresentes e os exemplos não faltam. Uma casa típica de classe
média sem computador tem cerca de 40 processadores, ou chips,
espalhados pelo microondas, videogame, telefone e outros eletrodomésticos.
Quando há um PC, o número sobe para 50 chips. Quem usa cartão
de banco, faz débito automático ou saque em caixa eletrônico
também depende de informações digitais. O mesmo vale para quem
acumula milhas aéreas, controla as vacinas infantis e acumula
pontos por encher o tanque do carro nos cartões de fidelidade
com chip embutido, os chamados smart cards. Enquanto na revolução
industrial o automóvel era o maior ícone das linhas de montagem,
o Boeing 777 é duplamente um símbolo da velocidade supersônica
da era da informação. Totalmente projetado e testado em computadores,
o novo jato da Boeing fez seu vôo inaugural nos ares, sem simulações
reais, e seu funcionamento é monitorado por 1.300 processadores,
dez vezes mais do que os primeiros modelos 707 da companhia
a sair de fábrica com controles digitais, nos anos 60.
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Darcio
de Jesus

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Só porque o mundo
agora está online foi possível que descendentes das vítimas
do Holocausto consultassem, de qualquer lugar do mundo, as
contas bancárias de seus familiares confiscadas pelos bancos
suíços. Bastava digitar o nome na página da organização Simon
Wiesenthal para localizar o dinheiro pilhado pelos nazistas.
No mês passado, o Ministério da Cultura da Alemanha colocou
à mostra, pela Internet, as 13 mil pinturas, esculturas e
livros da coleção Linzer, que reúne obras de arte surrupiadas
de famílias judaicas durante a Segunda Guerra Mundial. Outro
indicador da era da informação foi a divulgação na Web do
relatório do advogado americano Kenneth Starr, com detalhes
picantes do caso extraconjugal entre Bill Clinton e a estagiária
Monica Lewinsky. Os servidores onde estava a íntegra do Relatório
Starr ficaram atolados de curiosos durante dias, em setembro
do ano passado. Todos queriam ler os detalhes do depoimento
da estagiária, que revelou como Clinton usou charutos numa
relação sexual em plena Casa Branca. Apesar de tanto furor
em torno da Internet, a riqueza do universo digital não se
resume apenas à rede de computadores. Fabricantes de chips
e programas pesquisam formas de interligar os aparelhos eletrônicos
que nos rodeiam. Máquina de lavar roupa e microondas com acesso
à rede, geladeira inteligente, agendas eletrônicas que comunicam-se
sem fio com o PC. Tudo isso existe em protótipo ou funcionando.
Mas está distante o dia em que, ainda no escritório, ligaremos
o forno da cozinha para chegar em casa com o jantar quentinho.
A velocidade das mudanças é tão
avassaladora que três das mais importantes tecnologias do momento não existiam há 20
anos: o telefone celular, a Internet e o CD. Hoje os avanços estão em todos os lados: na
medicina, na economia, nas artes, no dia-a-dia. No Brasil, as pesquisas apontam que
assiste-se menos à tevê e muitos sacrificam horas de sono para trocar e-mails, navegar
pela rede ou entrar nas salas de bate-papo online. O horário de pico de audiência na
Internet começa ao anoitecer e vai até o início da madrugada, quando as tarifas
telefônicas são mais baratas. Outro forte indicador de que algo mudou na sociedade
brasileira é a adesão em massa à entrega do Imposto de Renda online. A Secretaria da
Receita Federal incentivou a entrega de declarações via computador. Oferecia como
recompensa um lugar privilegiado na fila para receber a restituição do imposto, mas o
volume de entrega de declarações eletrônicas foi tão grande que surpreendeu o próprio
Leão.
A quarta edição
da Pesquisa Internet Brasil feita em nove regiões metropolitanas
pelo instituto Ibope e pelo site de buscas Cadê? indica que,
de dezembro do ano passado até junho deste, 750 mil brasileiros
entraram pela primeira vez na rede. Na única pesquisa sistemática
realizada sobre o mercado nacional estima-se que existam ao
menos 3,3 milhões de brasileiros plugados à rede, o que nos
coloca entre os países mais conectados do planeta, embora
esse índice represente menos de 5% dos brasileiros. O País
ainda engatinha na era digital. No mundo inteiro, 97 milhões
de pessoas acessam a Web usando o computador de casa, conforme
revela estudo da americana Ovum Ltd. Esse número deve saltar
para 240 milhões em 2004. Da mesma forma, as empresas e os
executivos plugados que este ano serão 53 milhões, daqui a
cinco anos devem somar 180 milhões, segundo a pesquisa. Com
preço médio de R$ 35 ao mês, o acesso à rede ainda está longe
de ser acessível às classes D e E. Integrantes das classes
A e B representam a imensa maioria dos usuários (84%), enquanto
13% integram a classe C, outra vez de acordo com a enquete
do Ibope/Cadê?
Leo
Caldas/Ag. Lumiar

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Velocidade da luz
Com sua habilidade em percorrer milhares de quilômetros na
velocidade da luz, o correio eletrônico aproximou pessoas,
eliminou fronteiras e aboliu o fuso horário. Fala-se com alguém
em Salvador ou em Paris no mesmo instante, como se todos estivessem
presentes numa única sala. "Tudo acontece em tempo real,
no aqui e no agora, e conversa-se com um colega no Japão com
mais facilidade do que se ele estivesse no andar de baixo",
compara Silvio Meira, professor titular do Departamento de
Informática da Universidade Federal de Pernambuco. Há quase
dois anos suas fontes de informação, discussão e trabalho
estão restritas à rede e aos livros. "A era da informação
é uma combinação de fatores. A tecnologia traz a possibilidade,
a ciência vem com a verdade e a arte, com a beleza e o apuro
estético", define o professor. Estudioso do impacto da
informática no comportamento da sociedade, Meira preside o
Centro de Estudos Avançados do Recife (Cesar), organização
não-governamental que coloca à disposição das empresas os
cérebros mais brilhantes da universidade. O resultado vem
na forma de soluções criadas pelos acadêmicos para suprir
necessidades práticas das companhias. Meira também avalia
o lado crítico da tecnologia. "A missão primeira da computação
sempre foi tornar a vida do ser humano mais fácil. Só que
aconteceu o contrário. Ninguém previa tamanho aumento da competição
no mercado de trabalho."
Tempos modernos
Depois de anos a fio apertando porcas e parafusos nas linhas de montagem das fábricas de
automóveis, o ser humano buscava eliminar atividades repetitivas. Pouco a pouco, as
máquinas foram eliminando tarefas fatigantes (muito bom!) e substituindo postos de
trabalho (nada bom!). No início do século, as fábricas concentravam as massas de
trabalhadores. Agora as mãos foram trocadas por eficientes braços mecânicos. Como
resultado surgiu uma sociedade baseada na troca de serviços, onde a informação é uma
preciosidade, verdadeiro mecanismo de poder. O sociólogo italiano Domenico de Masi relata
em seu livro A sociedade pós-industrial (Ed. Senac) que existem mais de mil nomes
para designar a fase na qual vivemos. As definições vão desde Sociedade do Capitalismo
Avançado, como chamou o economista canadense John Kenneth Galbraith, até Terceira Onda,
na opinião do futurólogo americano Alvin Toffler. Ou ainda era da descontinuidade, como
preferiu o guru das empresas Peter Drucker. Independentemente do nome escolhido, o que
importa é que a vida mudou. "Nos últimos 25 anos deste século que se encerra, uma
revolução tecnológica com base na informação transformou nosso modo de pensar,
produzir, consumir, negociar, administrar, comunicar, viver, morrer, fazer guerra e fazer
amor", escreve o sociólogo catalão Manuel Castells, em O fim do milênio
(Ed. Paz e Terra), último volume de uma trilogia monumental sobre as influências da era
da informação na sociedade e economia.
Do mesmo modo como rompeu fronteiras
geográficas ao aproximar pessoas que se conversam apesar de estar em continentes
distintos, o e-mail também alterou a percepção do tempo. Tudo parece mais rápido no
mundo da competição globalizada. Fecham-se negócios na rapidez com que uma mensagem
pisca na tela. E, se hoje é alto o índice de pessoas que tomam decisões diariamente
pelo correio eletrônico, é bom lembrar que a falta de cuidados com o e-mail pode colocar
uma empresa em apuros. Foi o que aconteceu com a Microsoft, acusada formalmente de
práticas monopolistas por um juiz federal dos EUA. Além dos depoimentos, a acusação
tinha como provas uma montanha de e-mails comprometedores. Na correspondência
eletrônica, Bill Gates soltava o verbo. Distribuiu ordens para esmagar a concorrência,
mencionou produtos, nomes e fatos. Tudo por escrito, com riqueza de detalhes. O que
ninguém esperava era ver esses documentos na mão da Justiça, num processo aberto por
Washington e mais 19 Estados contra a empresa do homem mais rico do mundo. Depois do
susto, muitas corporações recomendaram que os funcionários apagassem documentos
confidenciais. O mesmo vale para quem não quer que seus dados pessoais caiam em mãos
indesejadas. Apesar da evidente falta de privacidade online, o e-mail revolucionou a forma
de comunicação entre as pessoas.
PC sensível
Na conversa digital, contudo, desaparece um
fator importante no relacionamento humano: a comunicação não-verbal,
traduzida em gestos e expressões que a inteligência do computador
jamais vai captar. Para amenizar esse obstáculo, os cientistas
dedicam-se a criar máquinas capazes de reconhecer ao menos
as expressões de face do seu dono. Atualmente os laboratórios
da IBM e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)
conduzem pesquisas para criar máquinas capazes de capturar
expressões de satisfação ou raiva de seus usuários. O objetivo
é programar o computador para que ele dê respostas condizentes
com a ocasião, como corrigir seu próprio erro e abrir um novo
arquivo, por exemplo. Um dos projetos em estudo na IBM é uma
tela com sensores embutidos para "pescar" o olhar
de quem fica diante do PC. "Em vez de usar o mouse, os
olhos poderiam guiar-nos pela tela", descreve Jean Paul
Jacob, pesquisador brasileiro do laboratório da empresa em
Almadén, no Vale do Silício, e professor na Universidade da
Califórnia em Berkeley. "O objetivo da informática é
tornar-se invisível aos olhos", explica Jacob. O que
não se aplica necessariamente aos sentidos. Embora a idéia
de clonar andróides e criar ciborgues esteja próxima apenas
dos roteiros hollywoodianos de ficção-científica, existem
esforços para que o computador assimile algumas das formas
de percepção oferecidas pelos cinco sentidos humanos. A sinergia
dos sentidos e da máquina, aliás, foi o tema de debate de
diversos especialistas reunidos na Universidade de Chicago,
em outubro passado. "Está cada dia mais sutil a fronteira
entre a medicina, a física, a biotecnologia e o trabalho dos
artistas da era digital", conta Analivia Cordeiro, bailarina
que representou o Brasil no congresso de Chicago. Filha do
artista plástico Waldemar Cordeiro pioneiro no País
a fazer arte com computação, no início da década de 70 ,
Analivia criou um programa para estudar o movimento do corpo
e reproduzi-lo em aulas de dança. Outro artista brasileiro
que traz a tecnologia na pele é Eduardo Kac, também professor
da Universidade de Chicago. Ele implantou um chip no tornozelo
e cadastrou-se pela Internet num banco de dados de animais
perdidos. Fez isso para mostrar que, no futuro, poderá carregar
o chip com dados que ficam armazenados para sempre em seu
corpo. Outro de seus projetos é a criação de um cachorro transgênico,
que terá inserido no seu DNA trechos do código genético de
uma água-viva. Assim, o cão emitirá luz verde fluorescente
quando exposto ao sol, como acontece com a água-viva.
Contra o relógio A
mesma tecnologia que oferece uma nova maneira de fazer arte também serve para aumentar a
produtividade. Os aparelhos digitais tornam qualquer um localizável a qualquer hora do
dia ou da noite. Resultado: trabalha-se demais. "Para continuar competitivas
internacionalmente, as empresas não podem contratar funcionários. Quem tem emprego
trabalha muito e quase não há distinção entre trabalho e lazer", analisa Silvio
Genesini, sócio-diretor da Andersen Consulting, uma das cinco maiores consultorias
empresariais do mundo. Assim como ocorreu no século passado, quem estiver preparado para
a evolução da sociedade tem mais chances de sobreviver na economia globalizada e baseada
na informação digital. O problema é que nem sempre estar preparado para o mercado de
trabalho significa arrumar emprego. Segundo Domenico de Masi, professor na Universidade La
Sapienza, em Roma, os aparelhos tecnológicos, em conjunto com novas formas de organizar a
produção nas corporações, "liberaram um número cada vez maior de pessoas de seu
trabalho e, consequentemente, de seu salário. Infelizmente, a evolução social é muito
mais lenta do que a científica e a tecnológica, por isso é difícil implementar os
mecanismos de redistribuição das tarefas de modo que seja possível trabalhar menos e
todos possam trabalhar".
A velocidade dos avanços tecnológicos é
tão alucinante que a fabricante de relógios Swatch criou um horário específico para a
Web. Nesse novo sistema, o dia começa à meia-noite. Mas o marco zero não é o meridiano
de Greenwich e sim a cidade suíça de Biel, sede da Swatch. O dia digital foi dividido em
mil beats (batidas, em inglês). Cada um equivale a um minuto e 26,4 segundos.
Enquanto um relógio convencional mostra meio-dia, o tempo da Internet indica @500. Com
isso, afirma a fabricante suíça, podem-se marcar reuniões por e-mail ou
videoconferência sem se preocupar com fuso horário. Embora pareça excentricidade, é
certo que no mundo digital não há mais diferença entre fazer negócios, trabalhar,
divertir-se ou comprar durante o dia ou à noite, no fim de semana ou nas férias. "O
tempo intemporal passou a substituir o tempo cronológico da era industrial", decreta
Manuel Castells, professor na Universidade da Califórnia em Berkeley. Todo dia, a
qualquer hora, em qualquer lugar, sempre é hora de trabalhar. Foi pensando nisso que o
hotel Ritz-Carlton de Kuala Lumpur, na Malásia, resolveu criar uma diária de 24 horas
que começa na hora em que o hóspede chega ao quarto. Em função do fuso horário, um
executivo americano que decolou de Los Angeles de dia pode pousar na cidade às três da
madrugada. Ele não vai mais precisar aguardar o check-in do dia seguinte. Nem botar as
malas fora do quarto ao meio-dia no dia da partida.
Os reflexos da nova sociedade são mais
visíveis na economia, mas a esfera política também precisa adequar-se. Em Washington,
os analistas comemoram o fato de que candidatos antes alijados do processo eleitoral por
falta de recursos hoje disputam o mesmo espaço com políticos dotados de orçamentos
milionários: um site na Web. "Na próxima década haverá a convergência entre
telefone, televisão, satélites, emissoras de TV a cabo e Internet. O usuário então
terá muito mais poder para decidir o que lhe interessa", diz o venezuelano Gustavo
Cisneros, presidente do Grupo Cisneros. Eleito há dois anos um dos homens mais poderosos
do mundo pela revista americana Vanity Fair, o magnata latino-americano das
comunicações comanda 12 emissoras de tevê, a operadora por satélite DirecTV e tem 50%
do provedor de acesso que a America Online acaba de inaugurar no Brasil. "O acesso
aos meios tecnológicos garante uma pressão muito maior da sociedade sobre seus
governantes", resume Cisneros. No cenário internacional, a revolução digital deixa
evidente que a ameaça pode partir de um único PC escondido num remoto canto do planeta.
David
e Golias Em abril deste ano, durante o conflito
entre Forças Aliadas e Slobodan Milosevic, quando os aviões
da Otan acidentalmente erraram o alvo lançando bombas sobre
a Embaixada da China em Belgrado, um grupo de hackers chineses
demonstrou sua ira contra os americanos. A arma foi uma ofensa
digital. Os invasores entraram nos computadores de uma agência
oficial da Marinha dos EUA e estamparam a foto do presidente
Clinton com o bigode de Hitler. Organizações pequenas agora
desafiam potências. Para o pensador francês Paul Virilio,
é sinal dos tempos. "Pela primeira vez, a história vai
acontecer em um tempo único: o tempo mundial. A história se
desenrola no presente, no tempo local, no espaço local, nas
regiões, nas nações. Ou, de uma certa maneira, a globalização
e a virtualização instauram um tempo mundial que prefigura
um novo tipo de tirania", define Virilio. Ninguém sabe
ao certo como será a sociedade do futuro. Difícil até prever
o que acontecerá dentro de uma década. Mesmo assim, ainda
que a física e o calendário provem o contrário, o tempo parece
mais volátil, virou raridade e o dia parece ter menos de 24
horas. Graças ou por culpa da revolução digital.
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