Sendo o primeiro grande artista a lançar um álbum completo online, David Bowie (www.davidbowie.com) está no meio de um debate cujos temas podem parar no museu em breve – coisas como lojas de discos, direitos autorais e até mesmo os filmes de Hollywood. É a primeira vez na história da indústria que um ídolo de massa e uma grande gravadora entram em acordo sobre a distribuição digital de músicas pela Web. Algo parecido com entregar o ouro ao bandido. Há pouco tempo, o cantor defendia o formato digital mp3 no jornal inglês The Guardian: "Dias atrás, um garoto copiou uma música do meu site, regravou-a em casa, trocando as partes de que não gostava, depois colocou sua versão em seu próprio site, em mp3. Achei demais."

Será mesmo que Bowie é tão bacana a ponto de distribuir música grátis? Não é bem assim. Como é vinculado a uma grande gravadora, as faixas disponíveis no site de Bowie estão em formatos que dificultam a cópia. Para falar de verdade sobre a revolução artística que a Internet propõe no final do século XX, temos de trazer à roda nomes menos glamourosos. Como Michael Robertson, eleito recentemente uma das 100 personalidades mais influentes da indústria fonográfica. Em 1997, Robertson fundou a MP3.com – na época, um site que listava de links para artistas desconhecidos. Hoje, recebendo em média 250 mil visitas por dia, www.mp3.com é o epicentro de um terremoto do qual dificilmente as grandes gravadoras escaparão ilesas. Agregando mais de 31 mil artistas e centenas de selos independentes, a MP3.com elimina os intermediários e repassa ao músico 50% do faturamento na forma de direito autoral. Segundo a consultoria Forrester Research, dos US$ 15 que um CD custa nos EUA, cerca de US$ 2,50 vão para publicidade; US$ 1 para a fabricação do CD; US$ 3,50 para distribuição; US$ 2 para o lucro da loja. Dos US$ 6 restantes, US$ 4 ficam com a gravadora e só US$ 2 para o artista, que em geral os divide com produtores, empresários, etc. Distribuída digitalmente, os custos da música somem no ciberespaço.

Embora a MP3.com esteja no centro da polêmica, está longe de ser a única coisa a estremecer a Web. Recente artigo na revista americana Wired destaca que "mp3" ultrapassou a palavra "sexo" como o termo mais procurado no Yahoo e no Alta Vista. Para compreender o fenômeno, é preciso conhecer os primórdios do tal formato. Em 1995, a MPEG (organização que cria padrões mundiais de som e imagem) adotou um método para comprimir arquivos musicais em formatos digitais, batizado de mp3. Até então, um arquivo musical ocupava uns 200 megabytes. O mp3 reduziu para meros cinco megas, quase sem perda de qualidade. Pensando em utilizá-lo para rodar o CDI, um tipo de CD interativo da Philips hoje desaparecido, a MPEG distribuiu grátis o padrão. Não imaginou que milhares de garotos tivessem a brilhante idéia de usá-lo para comprimir suas músicas favoritas e trocar com os amigos.

Contra-ataque – O resultado foi uma multiplicação tão assombrosa de sites mp3 que os chefões da indústria decidiram mostrar os músculos. Através da poderosa RIAA – Associação Americana da Indústria Fonográfica –, petardos foram disparados na imprensa, artistas resmungaram contra a mp3 pirata, e houve até uma tentativa de proibir o lançamento do Rio, um walkman da Diamond Multimedia que roda mp3. Não conseguiram nada: Gradiente, Samsung, Sony e RCA lançaram os seus mp3man. Mas a associação contra-ataca em duas frentes. Uma é o SDMI, um padrão seguro que dá às gravadoras uma forma de controlar sua propriedade na rede. Em outro front, as gravadoras exercem pressão para rastrear sites piratas e forçar seus provedores a tirá-los do ar. "Não conseguirão", disse M.D.M.A., webmaster do Free Music, um site que distribui mp3 de guitar bands inglesas. "Na Internet você troca de endereço mais rápido do que consegue assobiar uma música dos Ramones", desafiou.

Tempo perdido – Talvez seja tarde demais para as gravadoras. Mesmo que se exterminasse a mp3 pirata, iniciativas dentro da lei como a MP3.com atrairiam cada vez mais público e músicos. E há, entre os artistas – os maiores interessados nisso tudo, afinal –, quem defenda que a arte seja grátis. Bojo é o nome de um duo paulistano formado por Lulu Camargo e Mauricio Bussab, que toca tecno com sotaque brasileiro. No site da dupla, www.bojo.net, seu CD está disponível em mp3, o que os tornou conhecidos a ponto de tocarem no Festival de Jazz de Montreal. "Hoje os artistas não têm controle sobre o que a gravadora faz com sua obra", afirma Lulu Camargo. "Os artistas têm de sacar que autopublicação e autodivulgação são o caminho", completa. Seu parceiro vai além: "Música é informação, informação tem de ser livre. Venderemos o próximo CD em loja e disporemos todas as faixas no site. Internet é a democratização de tudo!" O otimismo da dupla faz sentido. Para uma banda alternativa, ter mais de cinco mil downloads do disco é quase como ganhar um disco de ouro.

Mas, se as gravadoras perceberam tarde a maldição do mp3, isso serviu de lição para os estúdios de Hollywood. A lógica é simples: se é possível comprimir sons, o próximo passo será comprimir arquivos de imagem. O que possibilitará a capacidade até hoje inédita de se produzirem filmes fora da indústria e distribuí-los via Web, um apelo sem dúvida instigante para os futuros cineastas digitais. Muitos filmes têm sido feitos com imagens captadas por câmeras digitais ou utilizando tecnologias como o Flash, no caso da animação. O movimento dinamarquês Dogma 95 propõe um cinema desvinculado de produtoras, trabalhando com câmeras digitais e pequenas equipes, para criar filmes "puros" (Os idiotas, Festa de família, etc). O americano Todd Verow, irritado com a indústria de Hollywood, pretende filmar dez produções em 2000, somente auxiliado por seu produtor/roteirista e seus atores. E no Brasil, com pouco mais de US$ 100 mil, Marcelo Masagão realizou seu documentário Nós que aqui estamos, por vós esperamos quase totalmente baseado em imagens digitais, montando o filme em sua própria casa.

As facilidades do cinema digital viabilizam um cinema independente de grande público? Responde o videoartista e pesquisador em novas mídias Lucas Bambozzi: "A realização audiovisual passa por transformações radicais", ele anuncia. "Infinitos vídeos e filmes são produzidos só para a rede, CD-Rom e outras novas mídias. Essa produção pode causar uma revolução: é através da Internet que trabalhos fora dos padrões de mercado chegam ao público", afirma. O esmagador sucesso de um filme como A bruxa de Blair – apoiado no marketing criado por seu website, que veicula trechos do filme – prova que a Internet é fundamental na divulgação de um filme independente. Cabe por isso mesmo indagar se o modelo independente não cairá em contradição com sua mensagem alternativa e libertária ao atingir uma escala massiva. "Para que a mensagem tenha algum efeito, é preciso pegar o público. Com a Internet surgem novas possibilidades de isso acontecer. Novas formas de ver e fazer filmes", conclui.

A rede e os formatos digitais não colocam somente em debate a democratização da arte – como a própria forma de pensá-la e realizá-la. Assim, pode-se projetar um futuro em que o termo "comunicação em massa" cairá em desuso – adeus, Hollywood, discos de platina, filas nos cinemas, tiragens de milhões de cópias. Se o futuro tiver a leveza do mp3, assistiremos nos próximos anos a uma proliferação de artistas e obras independentes nunca vista.

 
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