![]() 29 de outubro de 1997 |
O Spirit que anda
SIDNEY GARAMBONE Mal aterrissou no Rio de Janeiro, Will Eisner – criador dos cultuados quadrinhos The Spirit e atração principal da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos, que terminou no domingo 26 em Belo Horizonte – foi logo apresentado, ainda no saguão do aeroporto, à edição brasileira de No coração da tempestade, uma de suas últimas graphic novels. Abriu, folheou e não resistiu. Pôs o nariz entre as páginas 88 e 89 e deu aquela fungada, revelando por segundos o prazer de sentir o odor da impressão. "Até hoje vibro com esse cheiro sensual", confessou. Pego em flagrante no ato explícito, o inventor do termo graphic novel ganhou um cutucão da mulher, Ann, que o fez corar. "Ele pensa em quadrinhos o dia inteiro. Em Tamarac, onde moramos, na Flórida, tenho que ligar para o estúdio e obrigá-lo a voltar para casa, senão ele vira a noite desenhando", diz Ann, há 47 anos casada com Eisner, um dos quadrinistas mais respeitados do mundo. William Earvin Eisner completou 80 anos com um vigor maior do que seu famoso detetive Spirit, criado em 1938. Pelo menos três vezes por ano viaja para prestigiar alguma convenção de quadrinhos sempre demonstrando estar sintonizado com o mundo moderno. Assustado com a crise que assola a indústria de quadrinhos americana, que de US$ 500 milhões faturados em 1995 despencou para uma previsão de US$ 300 milhões em 1997, Eisner não acredita na extinção do gênero e aponta uma saída. "O conteúdo precisa ser atualizado. Chega de apostar só na sofisticação do desenho", diz. "Temos que ir atrás do público adulto. Com a concorrência dos videogames, as crianças só compram quadrinhos se for para dar de presente aos pais." Bem-humorado, Will Eisner conversou com ISTOÉ sobre seu trabalho e o futuro da arte que defende. ISTOÉ – Completar 80 anos assusta? Will Eisner – Estou pensando seriamente em ligar para o governo americano e pedir para que eles façam a recontagem da minha idade. Não é possível que eu já tenha 80 anos. Ainda me sinto com 29, jogo tênis três vezes por semana, ninguém me ajuda a carregar malas e ainda tenho muito o que fazer. ISTOÉ – Fazer o quê? Eisner – Convencer ao mundo dos quadrinhos que a crise alardeada pela indústria tem solução. Em 1978 eu já cantava a bola de que precisávamos conquistar as crianças daquela época para continuarem lendo nossas histórias 20 anos depois. Não deu outra. Temos que ampliar esse público leitor adulto e para isso é necessária uma mudança do conteúdo falando de assuntos significativos. Os quadrinhos são a forma mais popular de arte. ISTOÉ – Quais, então, as razões da crise? Eisner – Em 1990, nos Estados Unidos havia 4.500 lojas de quadrinhos. Hoje são apenas três mil. A queda das vendas chega a 40% de 1995 para cá, apesar de sucessos como o herói Spawn, que vendeu um milhão de cópias. Mas é um herói como os outros, todos estão copiando o que já deu certo. Eu listo três razões para a crise. O requinte das edições as tornou caras, os colecionadores estavam sendo induzidos a comprar 100 exemplares do número 1 de uma revista qualquer achando que era um investimento e quebraram a cara. A badalada história da morte do Super-Homem era ridícula. Depois ele ressuscitou com um novo uniforme. Isso é uma idiotice. ISTOÉ – Foi realmente você quem inventou o termo graphic novel? Eisner – Sim. Em 1976 resolvi voltar à ficção depois de 20 anos dedicado ao uso educacional dos quadrinhos. Desenhei muito material didático para o Exército, escolas e fábricas. Uma obsessão que tenho até hoje é o uso educativo da história em quadrinhos. Fiz Um contrato com Deus e liguei para um editor amigo meu. Tinha certeza de que, se falasse em quadrinhos, ele desligaria na minha cara. Disse então que estava com um produto espetacular, uma graphic novel! Ele se empolgou e a publicou. Só que, hoje em dia, basta uma história em quadrinhos ter mais de 60 páginas que a chamam de graphic novel, mesmo que não tenha rebuscamento gráfico, texto elaborado e soluções criativas. Nunca gostei de como os americanos chamam as histórias em quadrinhos. Para mim, o termo comics lembra Kleenex, aquele lenço de papel. ISTOÉ – E a nova versão do Spirit, bolada por monstros sagrados das atuais histórias em quadrinhos como Frank Miller, Alain Moore e Neil Gailman? Você relutou em autorizar? Eisner – Sempre tive medo, porque ele não é um herói como os outros. Não tem superpoderes, depende de cenários e é humano, é um detetive dado como morto. O humor está muito presente no clima noir das histórias. Em 1984 fizeram uma série para a tevê americana, que fracassou. Claro, não havia humor. Agora Hollywood quer filmar. Para mim, só Fellini faria um bom Spirit no cinema. Quanto à nova versão em quadrinhos, só fiz duas exigências. Não queria adicionar nada e também pedi a Miller para não fazer o que ele fez com o Batman. ISTOÉ – Mas a releitura de Miller, em O cavaleiro das trevas, fazendo um Batman cheio de conflitos existenciais e com um apuro gráfico de gotas expressionistas, não é um sucesso reconhecido? Eisner – Claro. Gosto muito. Eu mesmo tinha sido convidado a redesenhar o homem-morcego, mas não tive a coragem de Miller. Só que o Spirit não tem essa versatilidade. E o problema do Batman é que a cada mês sai uma visão diferente, o que descaracteriza completamente o personagem de Bob Kane. Temo até que, por causa desse meu cuidado, essa inédita releitura do Spirit seja comedida. ISTOÉ – Por que você gosta de desenhar em preto-e-branco? Eisner – O preto-e-branco atua como parceiro do texto, não briga nem entra em conflito com os diálogos dos balões. As cores nos quadrinhos são como uma grande orquestra tocando junto a um cantor de voz pequena. ISTOÉ – No autobiográfico No coração da tempestade, você fala sobre o preconceito contra os judeus e o sonho do comunismo. Como andam essas idéias na cabeça de Will Eisner em 1997? Eisner – Eu era de esquerda. Antes da Segunda Guerra, quem era inteligente era anti-capitalista. O comunismo atraiu muito os judeus, já que pregava um sistema sem a existência de Deus e com igualdade numa época repleta de preconceitos anti-semitas. Um dia, ouvindo o discurso de um moscovita, percebi que Hitler, Mussolini e Stalin eram iguais. Quanto ao racismo, na hora da crise todos precisam culpar alguém e são as minorias que sofrem. ISTOÉ – Quais seus próximos projetos? Eisner – Estou desenhando um álbum com contos dos irmãos Grimm e quando acabar vou preparar uma nova graphic novel, ainda sem tema definido. Além disso, o brasileiro Maurício Furtado está rodando um documentário sobre minha vida. Falando em brasileiros, Ziraldo e Maurício de Souza são grandes amigos, quero ajudar Maurício no que posso na sua investida no mercado americano. Mônica e sua turma têm um humor tipicamente brasileiro. Vai ser difícil.
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