 15 de maio de 1996 | Índice | Abertura da ISTOÉ | Cartas | ISTOÉ hoje | Outras edições | Expediente

Utopia errante
A saga dos Marx diverte com fantasia política
O idílico cenário de uma praia chiquérrima do litoral italiano é invadido por um transatlântico apinhado de maltrapilhos imigrantes albaneses. Fugitivos da utopia comunista e ávidos pelo sonho consumista, eles são recebidos com hostilidade e repugnância até pelos cachorros. A polícia não tarda a chegar. Os albaneses ficam perplexos. Pensavam estar aportando em Dallas, no reino da liberdade. A cena é acompanhada em Londres pela tevê por Karl Marx, o pai do comunismo (1818-1883), sua mulher, Jenny, as três filhas e a empregada. O velho Marx assiste, "primeiro com surpresa, depois com rubor e finalmente consternado", ao desmoronamento dos regimes inspirados em suas teorias. Mais do que um romance sobre o fim do comunismo, A saga dos Marx (Companhia das Letras, 230 págs., R$ 18,20), do espanhol Juan Goytisolo, é um divertido olhar sobre a trajetória da utopia, que migrou do dogma marxista para o credo neoliberal.
Inspirado em Miguel de Cervantes e recorrendo à metalinguagem, Goytisolo constrói uma narrativa ao mesmo tempo bem-humorada e corrosiva. Como num filme de Fellini, o leitor acompanha as peripécias de Marx na sua viagem do passado para o presente. Súbito, o narrador passa a falar de sua dificuldade em escrever uma biografia do autor de O capital que seja vendável. Seu editor implica com o estilo "difícil" dos manuscritos. Na busca de informações para a biografia, o protagonista aborda o próprio Marx em Londres. Chega a participar de uma minissérie televisiva sobre Marx & família que, por problemas de audiência, acaba sendo substituída "por uma magnetizante telenovela brasileira".
O final de A saga dos Marx é desconcertante. Os albaneses deserdados do início do romance realizam seu sonho ao serem finalmente recebidos em Dallas pelo J.R. da série televisiva, que chega acompanhado de 20 mil loiras bronzeadas. São instalados em mansões "com uísque a rodo". E a biografia sobre Marx que o narrador estava escrevendo jamais será publicada. O livro termina devolvendo o leitor ao caos original e ao mundo das incertezas, entre elas, a da relatividade das doutrinas políticas.
CLAUDIO CAMARGO
Sem maquiagem
Michael Gross devassa o mundo das top models
Modelo, o mundo feio das mulheres lindas, de Michael Gross (Objetiva, 400 págs., R$ 34,80), não é um livro apropriado só para a legião de adolescentes que sonha pisar na passarela dourada das top models. Também seduz quem não tem nenhuma ligação com a moda, por decifrar uma receita excitante, onde se misturam megadoses de glamour, mulheres belíssimas, sensualidade e dinheiro, muito dinheiro. Em um retrato bem-feito e sem maquiagem, Gross põe à mostra o lado perverso desse mundo. O que aparece recende mais a enxofre do que as fragrâncias inebriantes de Calvin Klein. Festinhas movidas a cocaína, escândalos sexuais, baixarias e corrupções envolvem modelos, fotógrafos e agentes. A partir de entrevistas e muita pesquisa, o escritor desnuda a face trágica de um mercado de lances milionários. Jornalista que durante anos assinou uma coluna sobre moda no The New York Times, Gross costuma dizer que, no mundo das modelos, as alturas são incrivelmente brilhantes e as profundezas igualmente escuras e assustadoras. Poucas conseguem chegar ao topo da pirâmide. No sopé, porém, há uma multidão.
Com competência, ele exibe os tropeços, os saltos e as quedas fatais das modelos desde a década de 20, quando um ator desempregado abriu em Nova York a primeira agência de rostinhos bonitos, para os quais pagava US$ 5 por hora, até o apogeu dos anos 80 e 90, fase em que elas se transformaram em pop stars com cachês de até US$ 25 mil por dia. Não faltam curiosidades sobre mitos como Dorian Leigh e Suzy Parker, musas dos anos 40, Twiggy - a magricela inglesa que revolucionou os padrões dos 60 -, e a intimidade de estrelas como Cindy Crawford e Christy Turlington. Dono da Elite, uma das maiores agências do mundo, John Casablancas, 50 anos, é descrito como um simpático predador de mocinhas. Hoje casado com uma brasileira 30 anos mais jovem, ele aconselhava às modelos não serem tão profissionais e, vez ou outra, dormirem com os fotógrafos. Casos de estupros, dependência de drogas e até suicídios também aparecem nos relatos de Gross, mostrando que a cintilante indústria da moda pode ser uma impiedosa fábrica de dramas.
CHANTAL BRISSAC
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