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O Brasileiro do Século

13) Delmiro Gouveia
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Os moradores das 256 casinhas de alvenaria encravadas no sertão alagoano eram o mais autêntico retrato da felicidade. Trabalhavam para Delmiro Gouveia e tornavam realidade o devaneio de industrializar o Nordeste. Na Vila da Pedra, uma espécie de comuna criada pelo patrão, os operários - todos com jornada de oito horas por dia - tinham casa, escola e assistência médica gratuitas. As mulheres iam para a fábrica tranquilas, pois deixavam seus filhos numa creche. Enquanto a poucos quilômetros a seca castigava a terra rachada, ali os trabalhadores recebiam água encanada. O banho diário era obrigatório. Os adultos aprendiam a ler e escrever à noite. E faziam planos para o futuro, garantindo a aposentadoria à custa de contribuições de três tostões semanais. Se a Vila da Pedra dá a impressão de ter sido um cantinho do Primeiro Mundo no Brasil, assusta saber que ela existiu na longínqua década de 10. Seu idealizador acreditava que a educação era a única maneira de acabar com a praga do cangaço e da fome no Nordeste.

Beijoqueiro compulsivo
Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu a 5 de junho de 1863, no interior do Ceará, 14 anos antes de uma grande seca vitimar 500 mil nordestinos. O pai morreu lutando na Guerra do Paraguai. Oficialmente, deixou uma viúva e seis filhos. O sétimo rebento, Delmiro, veio de um caso extraconjugal. Ainda criança, mudou-se para o Recife e viu a mãe falecer quando ele tinha 15 anos. Analfabeto e sem dinheiro, foi atrás dos primeiros trocados como bilheteiro na estação ferroviária de Olinda. Aos 18 anos, empregou-se na Alfândega, mas os despachos burocráticos nunca o seduziram. Antes que morresse de tédio, Delmiro foi trabalhar no comércio de "courinhos", artigos de pele de bode e carneiro popularíssimos no Nordeste da época. Em 1891, fundou, com um amigo de origem inglesa, a Levy & Delmiro.

Aos 35 anos, era um comerciante respeitado pelos tradicionais donos do poder. Vestia-se com elegantes ternos brancos e transformava a casa onde morava em palco para festas noturnas memoráveis. De dia, encontravam-no sempre se declarando apaixonado para a esposa - era um beijoqueiro compulsivo. Em 1899, voltou da Exposição Universal de Chicago com a idéia de construir um enorme mercado onde se pudesse encontrar de tudo. O Mercado do Derby não demorou a ficar pronto. Era o primeiro estabelecimento comercial da capital pernambucana com energia elétrica, vendia produtos pela metade do preço e funcionava 24 por dia. Também contava com hotel, parque de diversões e restaurante.

Recomeçar do zero
Inimigo declarado do prefeito recifense, Delmiro tornou-se alvo das campanhas de difamação movidas pelos jornais. Sem dar bola para ameaças, viu que não estavam brincando quando o mercado foi incendiado. Os negócios iam mal e ele insistia em torrar dinheiro em viagens ao Exterior. Não deu outra: as empresas faliram em 1901, com uma dívida de 1,7 milhão de réis. O empreendedor recomeçou do zero. Sem gastar nada - dois sócios entraram com o capital -, montou uma fábrica de "courinhos". Recuperou a confiança dos credores, mas tropeçou nas coisas do amor. Separado da primeira esposa, apaixonou-se pela afilhada do governador do Estado, Segismundo Gonçalves. Às vésperas de completar 40 anos, raptou a menina, de 16, e a levou para o interior de Pernambuco (ela lhe daria três filhos). Com a prisão decretada, fugiu para a minúscula cidade de Água Branca, no sertão alagoano, onde constituiu seu império industrial.

Instalado numa fazenda da periferia, ao lado de uma grande cachoeira, ele botou na cabeça que construiria uma grande hidrelétrica. Importou equipamentos e, em 1911, trouxe para a "terrinha" um grupo de engenheiros americanos, que elaboraram um projeto de aproveitamento e exploração do rio São Francisco. Nascia a Hidrelétrica de Paulo Afonso. Para construi-la, o coronel do progresso enfrentou o pavor dos operários em descer os 80 metros de profundidade da queda-d'água. Para desfazer o medo dos sertanejos, o próprio Delmiro se aventurou no penhasco, amarrado a uma corda. Em seguida, obrigou-os a imitá-lo. Precavido contra qualquer demonstração de covardia, posicionou-se na beira da cachoeira, revólver em punho. Ai de quem se atrevesse a recuar!

Ousadia
Em 1913, ele provava que o Nordeste tinha potencial industrial, sim. Com a hidrelétrica em funcionamento, a luz e a água finalmente chegaram às fábricas, a 400 quilômetros de centros como Recife e Salvador. No comércio, o coronel passou a exportar 1,5 milhão de toneladas de peles. E, em mais um arroubo de ousadia, fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil, que logo nos primeiros meses de vida já produzia 216 mil carretéis de linha de algodão - ramo dominado pelos ingleses da Machine Cottons. Ao tocar em monopólios tradicionais, Delmiro se metera numa encrenca das piores. Mandou cercar sua casa-grande e contratou guardas armados, mas costumava sair para se deitar com suas amantes. Numa dessas vezes, no dia 10 de outubro de 1917, três tiros à queima-roupa acabaram com o sonho de cobrir o sertão de máquinas. Apesar das suspeitas recaírem sobre a Machine Cottons, o crime jamais foi solucionado. No processo judicial - em que ninguém nunca acreditou - o acusado de disparar os tiros foi condenado a 30 anos de prisão. Era um ex-operário da Companhia Agro Fabril - comprada em 1929 pelos ingleses - que morava justamente na Vila da Pedra.

VOCÊ SABIA?
Apesar de fluente na língua inglesa, fazia-se de desentendido quando algum estrangeiro o procurava na indústria ou no comércio. Dizia insistentemente que não estava compreendendo uma palavra. O objetivo era se livrar dos clientes britânicos que insistiam em pechinchar.