Ética e transplantes
José
Ricci Júnior
Em
tão rico momento de debate de um tema atual para a humanidade,
devemos ampliar os limites das reflexões e ultrapassar as
fronteiras dos transplantes de órgãos para reencontrar
a ética universal como referência maior para a regulação
das relações humanas em qualquer que seja o setor
de atividades.
Primeiramente,
a própria denominação do debate mereceria,
a meu ver, um reparo que exaltasse mais a ética e menos os
transplantes - quando se ouve falar sobre o tema, fala-se em transplantes
e ética. A ética em transplantes seria a designação
mais adequada porque subordinaria a prática dos transplantes
aos valores e princípios éticos, e não o contrário.
Esta abordagem seguramente eliminaria o desconforto revelado por
médicos que, na condição de transplantadores,
não se sentem muito a vontade para discutir, com a isenção
necessária, os temas expostos.
Ademais,
realçaria a primazia da ética universal sobre a tendência
à especialização da ética por setores
de atividades, que parece ser um caminho inadequado.
Na
verdade, as limitações registradas no ato de doar
localizam-se não apenas na questão da doação
de órgãos, mas estendem-se, de uma maneira geral,
à maioria das situações nas quais se esperaria
maior confiança e generosidade das pessoas. Não deve
ser por acaso que a cifra de não doadores na Inglaterra é
praticamente a mesma para São Paulo. Tudo isso tem a ver
certamente com o comportamento anti-ético que tem prevalecido
durante os séculos nas relações humanas, gerando
dúvidas, desconfiança, descrédito, medo enfim.
E não se trata de medo delimitado exclusivamente na esfera
dos transplantes. Alguns exemplos retratam essa atitude em outras
situações que, embora não se refiram diretamente
ao tema, mantêm estreita analogia com o que se passa no âmbito
dos transplantes de órgãos.
É
o caso da desconfiança revelada por pacientes indígenas
internados nas enfermarias dos hospitais universitários de
algumas das capitais brasileiras. Por que o índio teria de
aceitar, sem desconfiança e medo, os medicamentos que lhe
são ministrados por médicos brancos? Têm, os
povos indígenas, boas experiências com os homens brancos?
O processo de colonização na América Latina,
chamado civilizatório, matou 19 milhões de índios.
No Brasil, além da dizimação dos índios,
foram eliminados 5 milhões de negros. Entre os povos indígenas,
no Brasil, a taxa de mortalidade infantil chega a 140/1000 enquanto
que para os outros povos brasileiros é de 35/1000, ou seja,
a taxa de mortalidade dos índios é de extermínio.
Basta citar que a incidência de tuberculose nos índios
é dez vezes maior que na população branca para
que se perceba que está em curso uma verdadeira guerra bacteriológica.
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