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DINHEIRO DA REDAÇÃO
Quarta-feira, 13 de fevereiro de 2002

O PESO DO DÓLAR NO PESO

 

Quebrar contratos não é propriamente uma novidade em se tratando de governos – do primeiro ou terceiro mundo. Mas o que empreendeu a Argentina, na semana passada, em se tratando de asfixia de um setor, vai além do suportável. Ao converter dívidas em dólar para peso – com um calote consolidado nas instituições hoje estimado da ordem de US$ 30 bilhões – o governo Duhalde basicamente aniquilou, de maneira temporária ou não, o oxigênio que fluía no sistema financeiro daquele país. Qualquer correntista medianamente informado, em qualquer parte do planeta, sabe que bancos se alimentam do lucro angariado entre o dinheiro que toma mais barato e o que empresta mais caro. Na simples conversão portenha, quem devia um dólar passou a dever “apenas” um peso – com deságio arrasador já que um dólar estava valendo, por esses dias, cerca de 2,4 pesos. Entre bancos perplexos pelo tamanho da tungada e clientes ávidos por salvar suas economias, Duhalde insistia no passageiro instrumento de sucessivos feriados bancários, agravando a convulsão social. Abriu-se ainda, em meio a crise, uma brecha jurídica de poder devastador contra as pretensões governamentais de estabilizar o sistema: a Argentina assinou tempos atrás um tratado internacional que se sobrepõe até a sua Constituição. Por ele, qualquer conflito ou diferença de entendimento com bancos estrangeiros deve ser julgado por um tribunal arbitral em Washington, com munição para cobrar como dívida externa as pendências entre o país em questão e as instituições. Foi o preço pago por ter aberto mão de sua soberania sobre o sistema. Quando largou as porteiras do mercado para que bancos de fora se instalassem sem regulação, os argentinos estavam decerto mexendo equivocadamente numa daquelas áreas ditas estratégicas de cada nação. Com um grande peso em dólar – que o Peso terá de pagar. Fica a lição.

Carlos José Marques


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