| MEDICINA
& BEM ESTAR
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03/03/2004
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| Saúde |
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Travessuras
da mente
Novas drogas e diagnóstico preciso
melhoram tratamento
do déficit de atenção e hiperatividade |
Mônica
Tarantino
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Com a orientação
correta dos médicos, Fernanda deixou para trás os problemas
que apresentava na escola |
Faz parte da rotina
da vida de algumas crianças serem chamadas de avoadas, estabanadas
e inquietas. Porém, se a agitação ou a desorganização
persistirem durante o crescimento, o tom engraçadinho vai aos
poucos cedendo lugar a uma atitude mais crítica em relação
ao jovem. E não raro passa a ser visto como preguiçoso,
bagunceiro, egoísta (esquece o que os outros pedem), desajustado
e, muitas vezes, é tratado como aluno-problema. Comportamentos
como esses, no entanto, podem ser a face mais aparente de uma disfunção
conhecida como transtorno do déficit de atenção
e hiperatividade (TDAH), ou simplesmente hiperatividade. O problema
atinge até 6% das crianças em idade escolar, segundo
estatísticas mundiais. O distúrbio é caracterizado
pela falta de atenção e de capacidade de se concentrar
e planejar, que pode ou não estar associada a uma agitação
excessiva ou à impulsividade para agir. Às vezes, tudo
se combina.
A alteração é atribuída a um desajuste
na ação de duas substâncias que fazem a comunicação
entre os neurônios, a noradrenalina e a dopamina. Ele ocorre
no córtex pré-frontal, área do cérebro
que controla a razão e a emoção. Quando esses
mensageiros químicos não trabalham em harmonia, há
um aumento da dispersão e da agitação. Uma
das consequências é uma forma de funcionar mais acelerada
do cérebro, que filtra menos as informações.
Em consequência, há avalanches incontroláveis
de dados na mente do portador de TDAH. Dependendo da intensidade,
isso prejudica a memória, o aprendizado, a rotina.
A detecção precoce dessa condição –
embora pouco conhecida pela maioria dos médicos e professores
– é o meio mais eficiente de ajudar os portadores a
crescerem sem traumas. “Grande parte das dificuldades experimentadas
pelos portadores do transtorno pode ser amenizada e até evitada
com um tratamento bem planejado”, garante o psiquiatra Ênio
de Andrade, diretor do setor de psiquiatria da infância e
adolescência do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Na instituição, surgiu há 14 anos o
ambulatório pioneiro de TDAH. A medicina tem dado passos
importantes nessa direção. Há avanços
no diagnóstico, na abordagem e novos medicamentos a caminho.
O diagnóstico, por exemplo, está cada vez mais refinado.
Os médicos já sabem que é fundamental considerar
um conjunto de sintomas antes de chegar a uma conclusão.
É uma mudança importante, porque há muitos
casos de crianças classificadas como hiperativas sem ter
a doença, apenas pelo excesso de agitação.
“Fazemos várias consultas e um acompanhamento de dois
meses antes de dar uma opinião final e escolher o tratamento”,
diz o especialista Fábio Barbirato, que dirige o ambulatório
de TDAH da Santa Casa do Rio de Janeiro. A atitude surtiu efeito.
“Há dois anos, a quantidade de crianças diagnosticadas
com TDAH atingia 12%. Hoje, se mantém em torno de 5%”,
garante Barbirato. Ele diz ainda que de 30% a 40% dos jovens atendidos
com suspeita de TDAH na verdade sofriam de outros problemas, como
depressão e, principalmente, falta de limites em casa e na
escola. Outro mito é o de que crianças mais passivas
estejam livres do problema. “Na verdade, há crianças
com TDAH que podem ser até apáticas. Aquela menininha
meiga, mais quietinha, que não participa da aula e tem baixo
rendimento pode apresentar essa condição”, esclarece
a psicóloga Ana Olmos, de São Paulo, que atende muitas
crianças e adolescentes encaminhados por escolas particulares
da cidade para avaliar a origem do baixo rendimento e da desatenção.
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| Obra:
Ana Beatriz é portadora e escreveu um livro sobre o transtorno |
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Ainda que tardio, o reconhecimento e tratamento da doença
foi exatamente o que colocou a vida da psicóloga Ana Beatriz
Barbosa Silva nos eixos. Portadora do transtorno, ela enfrentou
muitas vezes situações constrangedoras, como a grande
dificuldade de concluir tarefas, lembrar nomes de pessoas e trocar
dia e hora de compromissos, até descobrir-se portadora do
déficit de atenção, aos 19 anos. “Assisti
por acaso a uma palestra e me identifiquei com os sintomas”,
diz. Na época, estava às vésperas de abandonar
a faculdade porque não conseguia concluir as tarefas”,
lembra. No ano passado, lançou o livro Mentes inquietas (Ed.
Gente), para leigos. Na obra, ela fala sobre a doença, conta
sua experiência e ensina formas de lidar com ela. “Uma
pessoa com TDAH pode ser criativa e bem-sucedida. Mas precisa aprender
a organizar a mente e a aproveitar bem seu potencial”, observa.
O tratamento mais eficiente, segundo os especialistas, é
o que cuida dos sintomas físicos e da mente. A medicação
tem papel importante no controle dos sintomas. “Ela é
usada para normalizar o desequilíbrio bioquímico do
cérebro. Estima-se que pelo menos 10% das crianças
com sintomas mais graves não podem prescindir do remédio”,
diz o psiquiatra Andrade. Casos mais leves também podem ser
tratados apenas com terapia comportamental, uma espécie de
treinamento para organizar as atividades e os pensamentos.
No setor dos medicamentos, há novidades. Até o final
de março, deve chegar ao Brasil uma nova versão da
Ritalina, o remédio mais usado em todo o mundo. A apresentação
atual disponível oferece ação por três
a quatro horas. A nova, chamada Ritalina LA, terá efeito
por 12 horas. À base de metilfenidato, atua como estimulante
do sistema nervoso central e regulariza a função do
neurotransmissor dopamina. Mas há outras opções.
Uma delas é o Concerta, remédio que usa a mesma substância
da ritalina e tem efeito por 12 horas. Atualmente, é importado
e custa entre R$ 300 e R$ 400. A estimativa é a de que possa
ser comprado nas farmácias, no final de abril. Isso deve
diminuir um pouco o custo. Para o ano que vem, espera-se a vinda
de uma outra substância, a atomoxetina (nome comercial Strattera),
lançada em 2003 nos Estados Unidos. O produto age por 24
horas e é uma opção para quem não tem
bons resultados com os outros medicamentos.
O investimento na divulgação do problema também
aumenta. Os especialistas Andrade e Barbirato, por exemplo, dão
palestras e cursos pelo País para informar melhor os profissionais
da saúde e da educação. Esse trabalho dá
frutos. Foi graças a ele que a pequena Fernanda Senna, dez
anos, encontrou ajuda. Desatenta e com baixo rendimento escolar,
ela carregava o rótulo de aluna-problema. Em uma das visitas
à escola, a mãe de Fernanda soube por uma professora
que havia uma pediatra entendida em distúrbios de aprendizagem
no posto de saúde. “A médica compreendeu os
problemas da Fernanda, conhecia o trabalho da Santa Casa e me encaminhou
para lá. Isso foi há dois anos e mudou as nossas vidas”,
diz a mãe de Fernanda, a auxiliar de enfermagem Elisabeth
Senna. Em tratamento há dois anos, a menina usa medicamentos
e faz sessões de fonoaudiologia. “Nunca vi minha filha
tão feliz”, afirma Elisabeth.
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