| BRASIL |
03/03/2004
|
| Lavanderia |
|
Bomba
suíça
Justiça de Genebra manda extratos
e promotor vai processar e multar Maluf em bilhões de reais
por desvio de dinheiro público |
Madi
Rodrigues
| |
 |
| |
Para Nicéia, que denunciou as contas de Maluf e de Celso Pitta,
a independência do MP foi decisiva |
Agora vai. Ou melhor, vem. A Câmara de Direito Público
do Tribunal Federal de Justiça da Suíça, em
Lausanne, vai mandar para o Brasil cópias da documentação
bancária do ex-prefeito Paulo Maluf (PP). Há dois
anos, o Ministério Público paulista tenta obter cópias
dos extratos de Maluf, prefeito de São Paulo entre 1993 e
1996. A chegada da documentação é apenas uma
questão de dias. “Obedecendo aos trâmites legais,
o dossiê sobre as contas da família Maluf será
entregue à Embaixada do Brasil, em Berna, depois da publicação
da sentença da corte suíça, e chegará
ao País nos próximos 30 dias”, acredita o promotor
Silvio Antônio Marques. A notícia sobre os extratos
de Maluf repercutiu no Exterior. A decisão da Justiça
suíça foi tema de reportagem do jornalista Jean-Noël
Cuénod, do journal Tribune de Genève com o
sugestivo título: “Justiça de Genebra vai lançar
bomba política no Brasil.”
Nesse caso, especificamente, a história toda começou
em setembro de 2001, quando o Citibank, de Genebra, suspeitou de
uma transferência de US$ 200 milhões para sua filial
na Ilha de Jersey – paraíso fiscal localizado no canal
da Mancha. O dinheiro depositado em duas contas em nome de Maluf
e seus familiares está bloqueado. Na época, o governo
suíço informou às autoridades brasileiras que
o ex-prefeito manteve a conta no Citibank de Genebra, entre 1985
e 1997, quando então o transferiu para a agência de
Jersey.
Investigado também no Brasil pelos crimes de corrupção,
lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Maluf bate na mesma
tecla desde o surgimento do escândalo: “Não tenho
e nunca tive conta no Exterior.
A divulgação dessa notícia é manobra
de caráter político eleitoral”,
foi o que ele, mais uma vez, mandou dizer a ISTOÉ, na quinta-feira
26, através de seu assessor de imprensa, Adilson Laranjeira.
O promotor rebate: “A Suíça só libera
documentos bancários se houver prova da origem criminosa
do dinheiro. E eu as tenho e as enviei.” E acrescenta: “Estamos
ganhando tanto no caso do Maluf quanto no do (Celso) Pitta (ex-prefeito
de São Paulo). A maior parte do dinheiro é de origem
do superfaturamento de obras públicas, entre elas a avenida
Águas Espraiadas e o Túnel Ayrton Senna.”
Mesma linha – Celso Pitta – secretário
municipal de Finanças na administração de Paulo
Maluf – sucedeu o chefe na administração
paulista entre 1997 e 2000. Para um secretário que virou
prefeito, em 1999 Pitta já estava bem de vida. Tinha mais
de US$ 1 milhão no Multi Commercial Bank, de Zurique. Desse
total, US$ 930 mil foram transferidos para Guernesey, outro paraíso
fiscal no canal da Mancha, vizinho a Jersey. “Os extratos
de Pitta já estão no Brasil, sendo traduzidos; chegaram
semana passada”, garantiu Silvio Marques. Pitta usou a mesma
tática do padrinho e mandou dizer, pelo assessor e ex-secretário
de Comunicação de seu governo (Antenor Braido): “Não
tenho conta na Suíça, nem em Guernesey, nem em qualquer
outro lugar. O caso, em questão tem mais conotação
política do que jurídica”.
Com os extratos bancários, o promotor Silvio Marques vai
poder entrar com uma ação de improbidade administrativa
contra os ex-prefeitos. “Vou pedir a devolução
do dinheiro aos cofres do município e também a aplicação
de uma multa de US$ 600 milhões”, que, convertidos,
somente no caso de Maluf chegam a R$ 2,3 bilhões”,
contabilizou. O promotor está confiante: “Durante esses
dois anos eu travei uma luta árdua para ter acesso a essa
documentação. Produzi provas, ouvi mais de 50 pessoas,
mais de 50 sigilos foram quebrados. Maluf recorreu em Genebra três
vezes e perdeu todas. Eu tenho uma montanha de provas de que houve
superfaturamento na construção da avenida Águas
Espraiadas.” Uma das principais testemunhas de Marques é
Nicéia Camargo, ex-mulher de Pitta. “Denunciei todo
o esquema de corrupção e de envio de dinheiro para
contas no Exterior. Considero a vinda desses extratos uma vitória
do Ministério Público, que acreditou na minha pessoa”,
diz Nicéia, que já sofreu diversas ameaças
de morte e dezenas de processos por causa das acusações.
“Fui processada civil e criminalmente em cerca de 50 processos.
Até agora fui absolvida em todos eles.”
A Suíça não é o único país
que investiga as supostas operações financeiras realizadas
por Paulo Maluf. Há suspeitas de que ele tenha realizado
operações irregulares em instituições
financeiras na França
e nos Estados Unidos. A promotoria de Nova York, por exemplo,
investiga o envio de dinheiro do Brasil para a Suíça.
Depois de tantas negativas, ele admite ter apenas uma conta fora
do País: na França. Em 24 de julho de 2003, ele foi
detido em Paris, em uma agência do banco Crédit Agricole,
para esclarecer a origem de US$ 1,46 milhão – depositado
pela Fundação Blackbird, empresa de seu filho Flávio
Maluf, em Liechtenstein, que mantém uma conta no Banco Barings,
em Genebra. Maluf teve ainda que explicar duas transferências
– de US$ 73,8 mil e US$ 116 mil – feitas pela mulher,
Sylvia, para o Crédit Agricole. Na época, declarou:
“Abri a conta por motivos fúteis” para arrematar
em seguida: “O dinheiro tem uma origem maravilhosa. É
produto da venda de um terreno adquirido por meu pai na década
de 40.” Essa conta também está bloqueada, dessa
vez pelos franceses.
|