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Sem esperança Ratos passeiam na obra assistencial do mentor religioso de Garotinho Aziz Filho
O prédio
de seis andares, cravado na entrada da favela de Acari, zona norte do
Rio, já fez por merecer o letreiro que está em sua fachada:
Fábrica de Esperança. O imóvel, sede de uma indústria,
foi doado para transformar-se em 1994 numa das mais importantes Organizações
Não-Governamentais (ONGs) do País. Entre cursos profissionalizantes,
creche e atendimento médico, chegou a ter 55 projetos sociais
graças à parceria com o governo, empresários e
outras entidades. A Fábrica de Esperança teve papel fundamental
para diminuir a violência na favela de Acari. A sua importância
foi reconhecida até pelo presidente Fernando Henrique numa visita
ao local logo depois da posse, no seu primeiro mandato. Tudo isso faz
parte do passado. Junto com a queda de prestígio de seu coordenador,
o pastor Caio Fábio apontado em 1998 como divulgador do
dossiê Cayman, sobre uma suposta conta do alto tucanato num paraíso
fiscal , a Fábrica foi para o buraco. Hoje, há só
cinco projetos em andamento, a luz foi cortada e os funcionários
estão há nove meses sem salários. Em breve, a entidade
será desapropriada pelo governo estadual. O grande prédio parece abandonado. Salas e corredores estão às escuras, a porta principal foi fechada com correntes, elevadores não funcionam e ratos passeiam pelo pátio. O fraco movimento em nada lembra o antigo ponto de referência para a comunidade, a qual atendia a cerca de dez mil pessoas carentes. Um tempo em que grandes empresas, institutos e fundações estrangeiras investiam um bom dinheiro ali. Nesse cenário desolador, poucos obstinados continuam o trabalho social. Um deles é Jorge Moraes, responsável por um curso de cabeleireiro. Para driblar a falta de energia, Moraes descarta o uso do secador de cabelos e dá aulas bem perto da janela para aproveitar a luz natural. Quando o dia está escuro, levamos as cadeiras para o pátio, afirma. Ele ainda enfrenta a falta de água, que depende da energia para ser bombeada. O curso de informática foi interrompido há duas semanas. Sem
salário Um dos projetos que se mantêm a duras
penas é a creche. Com capacidade para 450 crianças, atende
a 137 por falta de infra-estrutura. A comida é doada pela prefeitura
e a luz é fornecida pelo vizinho Centro de Cidadania do Estado,
numa ligação clandestina. O maior problema da coordenadora
da creche, Celma Marques, é a falta de pagamento dos funcionários.
Peço alimentos ao comércio. As funcionárias
não recebem, mas pelo menos têm uma cesta básica
por mês.
O governo
estadual decidiu desapropriar o prédio. Em consequência,
Caio Fábio deixará de ser o responsável pela entidade.
A Secretaria da Criança e do Adolescente se instalaria no local
e assumiria os projetos da Fábrica. Desde que foi acusado de
divulgar o dossiê Cayman e depois da revelação de
um romance extraconjugal com a sua secretária e atual
mulher o pastor amarga o ostracismo. As polêmicas em que
se envolveu afugentaram os parceiros da iniciativa privada e as entidades
não-governamentais que apóiam os projetos. Sem
quadra Além da inadimplência, pesa contra os
antigos administradores a acusação de má gestão
de recursos doados por uma ONG americana. A irregularidade teria ocorrido
em um projeto de assistência a adolescentes, resultado de uma
parceria com a Uerj e a Fundação Kellogs. A fundação
americana aprovou o repasse de US$ 680 mil, que seriam liberados em
três anos. Entre os objetivos, estava a construção
de uma quadra esportiva. Dois anos após o início do projeto,
uma auditoria feita a pedido da Kellogs constatou que a Fábrica
de Esperança gastara o dinheiro sem construir a quadra. |
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