Especial
Um
novo caminho
Terapias
alternativas complementam o tratamento convencional contra
o câncer e melhoram a qualidade de vida dos que lutam para
vencer a doença
Kátia
Strigueto e Thiago Lotufo
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Ilustração:
Roberto Weigand
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Há
três meses, a psicóloga Jassyendy de Oliveira,
48 anos, foi aprovada com louvor na primeira avaliação
radiológica a que foi submetida depois do tratamento
para retirar um tumor no pulmão direito. A tomografia
do tórax mostrou que não havia novas lesões
e o processo interno de cicatrização caminhava
bem. Desde que o câncer foi descoberto, em junho do
ano passado, Jassyendy fez quatro sessões de quimioterapia
para reduzir 30% do tamanho do tumor e submeter-se a uma cirurgia
que lhe removeria um terço do pulmão. Foi um
período difícil e pelo bombardeio químico
recebido por ela era de se esperar que os efeitos colaterais
fossem intensos. Em vez disso, a psicóloga sofreu apenas
um leve mal-estar. Fiel ao tratamento médico convencional,
ela queria algo a mais para suportar emocionalmente o baque
da doença e iniciou um tratamento paralelo com acupuntura
e florais de Bach. Enquanto a quimioterapia cuidava
do tumor, a acupuntura e os florais fortaleceram minha vontade
de viver. Saía das sessões de acupuntura mais
disposta e não fiquei deprimida em nenhum momento,
resume a psicóloga. Esse conjunto de terapias
foi responsável pela minha melhora.
Jassyendy
ainda não pode ser considerada curada (são necessários
no mínimo cinco anos para que um paciente de câncer
receba a alta definitiva), mas o modo como ela cuidou da doença
ilustra uma nova e cada vez mais comum tendência de
tratar o problema: aliar a medicina convencional a terapias
alternativas e complementares (as alternativas não
têm comprovação científica, enquanto
as complementares são mais aceitas). Esse modo de encarar
o câncer está refletido diretamente nos números.
Nos Estados Unidos, um estudo da Universidade de Harvard feito
em 1997 revelou que 42% dos pacientes com câncer procuraram
algum tipo de ajuda complementar ao tratamento padrão.
Em 1990, esse índice era de 34%. Já uma compilação
de 26 trabalhos realizados em 13 países mostrou que
a média dessa procura é de 31%. No Brasil, a
primeira fase de uma pesquisa feita entre 1998 e 1999 com
três mil pacientes do Hospital A. C. Camargo, em São
Paulo, maior referência em câncer no País,
revelou que 48% dos entrevistados usam pelo menos um outro
tipo de terapia em conjunto com a quimioterapia. Comecei
o estudo porque muitos pacientes perguntavam o que eu acho
das terapias alternativas e eu não tinha uma resposta
objetiva, diz o coordenador do trabalho, Riad Younes.
Os
principais motivos apontados pelos pacientes para a busca
de uma ajuda complementar são a impessoalidade da relação
com o médico tradicional, o uso em excesso de termos
técnicos para se referir à doença e o
desejo de receber um tratamento menos agressivo do que a quimioterapia.
E a medicina alternativa costuma oferecer justamente uma relação
mais próxima com os terapeutas, além de apresentar
a perspectiva de tratamentos menos dolorosos. Os pacientes
querem se agarrar a todas as armas, afirma Sérgio
Petrilli, diretor-clínico do Grupo de Apoio ao Adolescente
e à Criança com Câncer (Graac), de São
Paulo. Um estudo recente da Universidade de Stanford, nos
EUA, mostrou ainda que o interesse por terapias complementares
não é necessariamente resultado de más
experiências com a medicina convencional. Mas sim uma
maneira de os pacientes sentirem que têm um maior controle
sobre o tratamento e podem manter uma melhor qualidade de
vida. A artista plástica Denise Mascherpa, 30 anos,
por exemplo, buscou apoio nos florais e na meditação
para recuperar o equilíbrio emocional após ter
sofrido uma cirurgia em 1994 para a retirada de um tumor no
ovário. Acredito que o câncer tem um caráter
psicológico forte, diz. Andava muito triste.
Acho que isso contribuiu para o surgimento da doença.
O dentista aposentado Carlos Schwartz, 78 anos, também
faz parte dos pacientes que engrossam o novo perfil de tratamento
contra o câncer. Há cerca de três meses
por conta de um melanoma (câncer de pele)
ele faz quimioterapia e usa um tratamento alternativo chamado
Canova, com remédios homeopáticos. Diz que eles
o ajudaram a ficar menos abatido e a recuperar o bem-estar.
Parece que esse tratamento está ajudando a me
escorar, conta.
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Foto:
Marcelo Min
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| EMOÇÃO
A artista plástica Denise Mascherpa cosegui requperar
o equilíbrio emocional, o ânimo e o bem estar
com a ajuda de meditação, florais e do método
homeopático Canova |
Mudança
Desde que essa tendência pela união de
terapias foi detectada algo começou a mudar na medicina.
Em 1992, o governo americano criou o Office of Alternative
Medicine, um centro dedicado a investigar terapias não
convencionais como meditação, fitoterapia e
massagens, entre outras. Passados oito anos, esse centro foi
ampliado em mais dez unidades de pesquisa e recebe uma verba
anual de cerca de US$ 50 milhões do governo. Lá,
as faculdades de Medicina também estão se abrindo
e 27 delas incluem cursos de especialização
sobre o tema no currículo. Por aqui, a Universidade
de São Paulo (USP) há dois anos oferece uma
disciplina de práticas complementares com a qual o
aluno da faculdade de Enfermagem escolhe se quer ter noções
de terapia floral, massagem e toque terapêutico (uma
espécie de massagem energética). A academia
é o melhor lugar para estudar a validade dessas práticas,
justifica Maria Júlia Paes da Silva, professora de
Enfermagem da USP. Esse novo paradigma de tratamento recebeu
mais dois importantes reforços nos Estados Unidos:
mais de 30 planos de saúde passaram a oferecer cobertura
para terapias não-convencionais e renomados centros
de oncologia começaram a adotá-las juntamente
com os procedimentos habituais.
No MD Anderson Cancer Center, o maior centro americano de
tratamento de câncer, foi aberto há dois anos
o Place of wellness (algo como lugar do bem-estar),
onde os pacientes complementam seus tratamentos com atividades
que vão desde aulas de tai chi chuan até arteterapia
e auto-hipnose. Além do corpo, a mente e o espírito
têm de se recobrar do câncer, diz a coordenadora
Laura Baynham, na homepage do MD Anderson. O Memorial Sloan-Kettering
Cancer Center, em Nova York, oferece no departamento de Medicina
Integrativa (que busca a interação de diversas
terapias) acupuntura, massagem, meditação e
outras técnicas. Em São Paulo, um dos centros
pioneiros a divulgar esse conceito de medicina integrativa
para o câncer é o Day Care Center, que conta
com a supervisão do Memorial Sloan-Kettering e do Beth
Israel Medical Center. Na clínica, onde o atendimento
é gratuito, o paciente tem à disposição
um suporte emocional que inclui psicoterapia breve (cerca
de oito sessões focalizadas no problema), visualização
(relaxamento baseado na projeção mental de imagens)
e musicoterapia. Esse apoio se traduz em menos complicações
e queixas por conta da quimioterapia, explica Ana Georgia
de Melo, uma das diretoras da clínica.
Quem
frequenta espaços como esses também pode esclarecer
dúvidas sobre as diversas terapias que usa e ouve falar.
É uma chance e tanto. Isso porque, em média,
menos de 40% dos pacientes contam para seu médico que
estão adotando algum tipo de terapia alternativa. O
restante tem receio de ser criticado. Esse clima não
é bom. O ideal é abrir o jogo com o médico,
diz Sérgio Petrilli, do Graac. O músico Pedro
Luiz Albernaz Jr., 35 anos, se conscientizou disso desde que
recebeu o diagnóstico de melanoma, em 1997. À
quimioterapia que tem de fazer, ele somou práticas
como meditação, remédios fitoterápicos
e antroposóficos, mas sempre sob a vigilância
de seu oncologista. Falo sobre tudo para que ele me
oriente caso alguma dessas escolhas possa atrapalhar a quimioterapia,
conta. Vera Rodrigues Pereira, 47 anos, também não
escondeu do médico a opção de usar a
cromoterapia (terapia com luzes) para dar um reforço
à quimioterapia que seu filho, Andrei, dez anos, recebeu
no ano passado devido a um tumor na tíbia (osso da
perna). Aplicava o conjunto de luzes na perna do garoto diante
do especialista e ao mesmo tempo ele passava pela sessão
quimioterápica. O importante era meu filho ficar
bem. Acho que isso ajudou a reduzir os efeitos colaterais,
conta Vera.
continua
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