GOVERNO
| RICARDO
STUCKERT |
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Fecha-se
o cerco a Greca
MP
quebra sigilos e investiga doações a instituto presidido pela mulher
do ministro
Sônia
Filgueiras
O Ministério Público Federal aponta suas baterias
para as relações perigosas do ministro do Esporte
e Turismo, Rafael Greca, com o Instituto Farol do Saber, entidade
privada sediada em Curitiba que leva o mesmo nome do projeto que
foi marca registrada do ministro em sua passagem pela prefeitura
da capital paranaense: o programa Farol do Saber, um conjunto de
minibibliotecas de bairros na forma do sinalizador. Quando vai a
Curitiba, o ministro, que até há pouco tempo ainda
distribuía cartões de apresentação com
a marca do instituto, despacha na sede da entidade que tem como
finalidade, segundo estatutos, prestar assessorias, promover convênios
e a cultura. A maioria dos assessores de Greca no Ministério
usa na lapela um button em formato de farol. E pelo menos dois deles,
Tereza Castro e Mauro José Magnabosco, estão entre
os sócios do instituto, ao lado de Iara, prima do ministro.
Tereza é secretária-executiva de Greca - na prática
a vice-ministra da pasta. Magnabosco é o arquiteto do Ministério
responsável pelas obras dos 500 anos do Descobrimento. A
presidência do instituto também ficou dentro da família:
é ocupada pela mulher do ministro, Margarita Elizabeth Pericás
Sansone.
A mulher do ministro preside ainda a Fundação Cultural
de Curitiba, que no ano passado recebeu R$ 600 mil do Ministério
de Greca para "cooperação técnica e financeira"
e "desenvolvimento de ações" dentro do projeto
Brasil 500 anos. "É um bom caso de promiscuidade. O
ministro está fazendo promoção política
ilegal", diz o procurador da República Luiz Francisco
Fernandes de Souza, que quer saber quem doa dinheiro para o Instituto
Farol do Saber e o que é feito com o dinheiro. O Ministério
Público suspeita que o instituto possa estar servindo para
fazer caixa de campanha. Como a entidade não presta contas
ao Ministério da Justiça, o chamado "demonstrativo
anual de fontes e usos", o MP decidiu abrir a caixa-preta.
Luiz Francisco pediu à Justiça, na última semana,
a quebra dos sigilos bancário e telefônico do Instituto.
Ex-seminarista e obcecado por trabalho, o procurador foge do visual
típico dos burocratas de Brasília (aboliu a gravata)
e é o mesmo que processou o ex-governador do Acre Orleir
Cameli e o deputado Hildebrando Pascoal.
Caixa de campanha - O MP se interessou em investigar a origem
do dinheiro do Instituto quando um informante contou detalhes sobre
seu funcionamento. Segundo este informante, que conversou por telefone,
também com ISTOÉ, o instituto pertence na prática
a Rafael Greca e é usado para angariar prestígio para
o ministro. Pistas passadas pelo informante, que nos últimos
dois anos já esteve duas vezes com Greca - uma em Foz do
Iguaçu e outra em Londrina, onde chegou a receber um cartão
do ministro com o logotipo do Farol -, levaram o MP a investigar
possíveis depósitos de "bingueiros" do Paraná
na conta do instituto. O MP abriu recentemente uma ação
civil de improbidade administrativa contra Greca e auxiliares por
permitir jogos de azar, omitir-se nas investigações
e facilitar o enriquecimento ilícito de "bingueiros".
Reportagens publicadas por ISTOÉ têm mostrado o esquema
de mafiosos italianos e barões do narcotráfico na
Europa que lavam o dinheiro do crime organizado importando, instalando,
distribuindo e explorando máquinas de video-bingo. Hoje existem
cinco mil bingos instalados no País, mas apenas 120 estão
legalizados. "Os bingos estão ligados aos banqueiros
do bicho, à corrupção, à lavagem de
dinheiro oriundo do narcotráfico internacional e a mafiosos
na Itália", resume o procurador Luiz Francisco. Para
o MP, Greca é, no mínimo, conivente. O ministro também
está sendo investigado por ter o seu ex-tesoureiro de campanha,
Luiz Antônio Buffara, montado dentro do Instituto Nacional
do Desporto (Indesp), uma estrutura de poder acusada de beneficiar
os bingos.
Doze empresas e 50 pessoas físicas vão ter sigilos
quebrados para que seja investigado um cardápio de suspeitas,
como corrupção e envolvimento em um esquema do qual
fazem parte "bingueiros" instalados no Brasil e mafiosos
italianos. Na lista do MP estão nove funcionários
e ex-funcionários do Indesp e oito servidores ligados a Greca:
seu chefe de Gabinete, Pedro Vieira César, o subsecretário
de Orçamento e Administração, Tupy Barreto
Júnior, os assessores Rosane Freitas, Suzana Jeolas, Almir
Bornacin e Lincoln Moreira, além de Tereza e Magnabosco,
sócios do instituto. O Ministério Público colocou
as mãos em 78 convênios firmados pelo Indesp, assinados
no final de 1999 e publicados no Diário Oficial da União
no início deste ano, para atendimento a pleitos de prefeitos
em diversas cidades.
A maioria das pastas com os processos leva nas capas e nas folhas
internas os nomes dos "padrinhos políticos" que
abraçaram a proposta. O MP sabe que há muito mais.
No total, são 600 processos assinados em 1999, somando R$
64 milhões. "Fica claro o uso de critérios políticos
dentro do Indesp", diz o procurador. Um convênio que
também chamou a atenção foi o repasse de R$
1 milhão feito no ano passado pelo Ministério para
a Prefeitura de Curitiba para a "implantação
de marco comemorativo do V Centenário do Descobrimento do
Brasil".
Sem sustentação - A situação
política de Greca também não é das melhores.
O PFL, partido ao qual é filia-do, continua encenando o resgate
de um de seus quatro ministros, mas fora dos holofotes nenhum dos
figurões do partido admite chamuscar sua reputação
para mantê-lo no cargo caso o tiroteio continue. O Planalto
só soube na véspera que Greca tinha depoimento marcado
no Senado na quinta-feira 27 para explicar a medida que trata do
funcionamento dos bingos. Com
a base mais desarticulada do que de costume, coube a Jorge Bornhausen
(SC), presidente do PFL, pedir a Greca que ligasse para o ministro-chefe
da Secretaria Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira,
para combinar com o governo o teor do seu depoimento. No Senado,
o ministro voltou a prometer que vai entregar ao MP seus extratos
bancários e os de sua mulher. Com Greca ainda de pé,
o PFL prefere continuar colocando a culpa no MP. "A Procuradoria
está exorbitando, deveria limitar-se ao silêncio dos
autos", reclamou Bornhausen, defensor da Lei da Mordaça,
que proíbe juízes e integrantes do Ministério
Público de se manifestarem sobre processos em andamento
A defesa de Greca
LIGAÇÃO COM O FAROL DO SABER
"Não tenho qualquer vínculo jurídico com
o Instituto"
ASSESSORES NO INSTITUTO
"Os dois profissionais (Tereza Castro e Mauro José Magnabosco)
são colaboradores intelectuais da instituição"
USO DA ESTRUTURA
"A papelaria do instituto pode ter sido
eventual-mente utilizada por mim. A secretaria do instituto presta-me
o favor, gratuitamente, de servir de central de informação
para pessoas de toda a parte que queiram ter contato comigo. Por
vínculo afetivo (...) nas vezes em que posso estar em Curitiba
utilizo o ateliê de criação e recebo pessoas"
REPASSE DE R$ 600 MIL
"O convênio foi firmado com
a Prefeitura Municipal de Curitiba e, por decisão do prefeito,
passou a ser executado pela instituição"
REPASSE DE R$ 1 MILHÃO - "A Comissão Executiva
do V Centenário decidiu implantar marcos nos 27 Estados da
Federação"
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