BASTIDORES
Briga
no ninho tucano
De
olho em 2002, Serra e Malan voltam a se bicar, desta vez por causa
do preço dos remédios
Wladimir
Gramacho
Não é novidade para ninguém que os ministros
da Fazenda, Pedro Malan, e da Saúde, José Serra, não
se dão. E há muito tempo. Os dois colecionam desavenças
e divergem em quase tudo desde o primeiro momento em que dividiram
espaço na equipe econômica do presidente Fernando Henrique
Cardoso, em 1995, logo no início do primeiro mandato. Só
não se sabia, até agora, que ambos também disputavam
o mesmo espaço no ninho governista. Por vias diversas, Serra
e Malan são candidatos potenciais à Presidência
da República. Como ministros, representariam melhor do que
ninguém a continuidade da obra de FHC. Isso dizem os políticos
e também as pesquisas, como a que foi concluída recentemente
pelo cientista político Antônio Lavareda, da Consultoria
MCI, a mesma que baliza as ações do Palácio
do Planalto. As mais recentes sondagens indicam que os dois nomes
do governo mais populares são justamente Serra e Malan, pela
ordem de preferência, e muito à frente de seus colegas
de Esplanada dos Ministérios. "Antes, a discussão
entre os dois era sobre política econômica. Agora,
é sobre projeto político", diz um ex-ministro
de FHC, muito próximo dos dois.
E sendo assim, Serra não quer perder a parada. Depois de
ir à lona diversas vezes nos debates sobre a condução
da economia, o ministro da Saúde trouxe a briga para sua
área, com uma bandeira bem popular. Em entrevista à
Folha de S.Paulo, atacou o aumento abusivo no preço dos remédios
e disse que o controle do Ministério da Fazenda era "frufru".
Pedro Malan não gostou do que ouviu, mas também não
revidou, evitando o desgaste de ser identificado como um defensor
dos laboratórios. Como de hábito, esquivou-se do golpe
e escalou um colaborador para representá-lo. Em nome do Ministério
da Fazenda, o secretário de Acompanhamento Econômico,
Cláudio Considera, acusou Serra de cometer erros grosseiros
nas contas sobre aumento de preços e criticou-o por defender
a volta do tabelamento de preços. Tudo, é claro, combinado
com Malan.
"Com a recuperação da economia, o ministro Pedro
Malan transforma-se inevitavelmente numa alternativa para a sucessão
de FHC em 2002", avalia o líder do governo no Congresso,
deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), que tem conversado longamente
com Serra nos últimos dias.
Nessa
disputa, os trunfos de Malan são o desempenho da economia
e seu prestígio junto ao presidente. Sua trajetória
no governo confirma o resto. Vitorioso nos grandes combates ministe-riais,
Malan sempre soube se preservar, resistindo como ninguém
às bicadas dos tucanos. Sua longevidade no cargo é
motivo de inveja entre os colegas. E seu raio de poder só
foi ameaçado, nos últimos tempos, por José
Serra, que conseguiu incorporar em sua pasta a supervisão
dos planos de saúde (antes na Fazenda) e implantar seu projeto
para a Agência Nacional de Saúde (contra a proposta
da equipe de Malan). Depois de se desgastar com as crises da Ásia,
da Rússia e do Brasil, Malan agora quer badalar sua pasta.
Pode até tirar da gaveta um projeto que chegou a discutir
com alguns assessores no ano passado: o de protagonizar um programa
de rádio sobre economia, aproveitando para criar uma ribalta
particular que possa rivalizar com os pronunciamentos frequentes
de Serra, ao anunciar as benfeitorias de seu Ministério.
|