EQUADOR
| AP |
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O
novo presidente vai manter a dolarização e a política
econômica
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Ao
vencedor, as bananas
Com
o aval das Forças Armadas, o vice Gustavo Noboa se torna o sexto
presidente em quatro anos
Cláudio
Camargo
"O Equador não é uma república de bananas."
A afirmação foi feita com indignada convicção
numa coletiva de imprensa pelo novo presidente do Equador, Gustavo
Noboa. Não foi uma menção ao importante item
da pauta de exportações equatoriana. Foi, sim, uma
tentativa de justificar os surpreendentes acontecimentos políticos
do país nos últimos dias, entre eles a própria
ascensão do novo mandatário. A crise teve seu ápice
no sábado 22, quando cerca de cinco mil indígenas,
apoiados por oficiais de média patente, tomaram de assalto
o palácio Carondelet (sede da Presidência) e o edifício
do Congresso para exigir a renúncia do então presidente
Jamil Mahuad. O estopim foi a dolarização da economia,
decretada por Mahuad dez dias antes numa desesperada tentativa de
controlar a desvalorização cambial e a inflação.
Sem apoio do alto comando militar, Mahuad fugiu do palácio
e os revoltosos instalaram uma "junta de salvação
nacional" formada pelo coronel Lucio Gutiérrez, pelo
líder indígena Antônio Vargas e pelo ex-presidente
da Corte Suprema de Justiça Carlos Solórzano. Pego
de surpresa, o ministro da Defesa, general Carlos Mendoza, manifestou
apoio à junta e conseguiu ocupar o lugar de Gutiérrez.
Menos de três horas depois, o alto comando, com o controle
da situação, empossou o vice Gustavo Noboa, que veio
de Guayaquil num avião da Marinha. "O general Mendoza
traiu o povo e o país porque jurou perante nós, perante
a Junta e perante o coronel companheiro Gutiérrez",
esbravejou Antônio Vargas, líder da Confederação
das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). Os indígenas
não tiveram outra saída senão voltar às
suas aldeias, embora suas lideranças prometessem continuar
a luta, já que Noboa manterá a política econômica
do antecessor. O novo governo também prendeu os oficiais
revoltosos e prometeu enviá-los à corte marcial. Aparentemente,
os militares conseguiram evitar, pelo menos por enquanto, uma quebra
na cadeia de comando.
O que ficou no ar - e certamente será um grave problema
para o novo presidente - foi a atitude do alto comando do Exército
durante a crise. Rumores de golpe ou autogolpe circularam a todo
vapor nos dias da rebelião. Segundo o general José
Gallardo, o ministro da Defesa, general Carlos Mendoza, foi o principal
conspirador e só não tomou o poder porque não
encontrou apoio suficiente na caserna. "O que ocorre é
que todas as unidades disseram ao general Mendoza: 'Somos contra
o rompimento da ordem constitucional.' Ele não foi herói,
simplesmente não pôde ser um ditador porque o grosso
das Forças Armadas não permitiu." O presidente
deposto, Jamil Ma-huad, bate na mesma tecla e diz que um autogolpe,
no estilo do peruano Alberto Fujimori, lhe foi oferecido pelo alto
comando militar. Já o general Mendoza afirma que a proposta
de autogolpe existiu sim, mas foi feita por emissários do
ex-presidente. "Por sorte, a institucionalidade das Forças
Armadas o impediu", garante o militar.
Noboa
é o sexto presidente do Equador em apenas quatro anos. Em
1996, o populista Abdulá Bucaram, que se aliara aos partidos
de esquerda e aos movimentos indígenas para governar, voltou
atrás e adotou um plano econômico orientado pela mais
dura ortodoxia monetarista. Em fevereiro do ano seguinte, ele foi
considerado "incapacitado mental" e destituí-do
pelo Congresso. O presidente do Congresso Fabián Alarcón
foi declarado sucessor, mas a vice-presidente Rosalía Arteaga
Serrano se declarou substituta legal de Bucaram. Ela ficou no poder
por apenas três dias e acabou entregando o poder a Alarcón,
que depois seria preso por corrupção. O prefeito de
Quito, Jamil Mahuad, que fizera oposição a Bucaram,
foi eleito presidente em 1998.
"Muita atenção" - A delegação
brasileira na Organização dos Estados Americanos (OEA)
defendeu na sessão especial do Conselho Permanente da entidade
que os organismos financeiros internacionais prestem apoio total
ao novo governo do Equador para que o país de 12,2 milhões
de habitantes possa superar a mais grave crise econômica dos
últimos 70 anos. O raciocínio do Itamaraty é
que toda a convulsão social por que passa o Equador só
vai terminar se o país superar o buraco econômico em
que foi jogado nos últimos dois anos. A já endêmica
crise econômica foi agravada por catástrofes naturais:
primeiro, o El Niño, que aqueceu o Pacífico e quebrou
a indústria da pesca do atum. Depois, a queda dos preços
de petróleo, um dos principais produtos de exportação
do Equador. "O governo Mahuad, eleito como honesto e bom administrador,
viu as receitas do país caírem vertiginosamente",
comentou a ISTOÉ uma fonte do Itamaraty. Para a diplomacia
brasileira, a posse de Gustavo Noboa representou uma solução
dentro da ordem constitucional. Mas o Itamaraty segue acompanhando
"com muita atenção" a situação
do Equador. No jargão diplomático, "com muita
atenção" quer dizer "com muita preocupação".
Para os diplomatas, se não ocorrerem melhoras imediatas na
economia, o quadro que levou à deposição de
Mahuad ganhará mais força. Como numa república
de bananas.
Colaborou Eduardo Hollanda (DF)
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