Nº 1583 - 02/02/2000
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Internacional
ESTADOS UNIDOS
AP


Várias cidades da Costa Leste americana, como Boston, foram duramente atingidas

Fúria branca

Tempestades de neve castigam a Costa Leste dos Estados Unidos no pior inverno desde 1996

Osmar Freitas Jr - Nova York

Na segunda-feira 17, o Serviço Nacional de Meteorologia americano revelou ao mundo seu mais novo analista: um supercomputador capaz de realizar espantosos 2,5 trilhões de cálculos num mero segundo. Encastelado num luxuoso prédio no Estado de Maryland, perto da capital Washington, o computador seria o profeta das tempestades, ciclones ou furacões, com antecedência confortável para os que enfrentam diariamente os humores da natureza. Este prodígio eletrônico alertou de cara que uma frente fria, trazendo muita neve, estava para atacar os Estados do Nordeste americano, mais precisamente desde a Carolina do Norte até bem além das fronteiras com o Canadá. O que se viu na terça-feira 25 foi muito mais do que isso. Sobre boa parte dos Estados Unidos uma tormenta despencou com fúria inesperada, soterrando ruas, estradas, aeroportos, automóveis, escolas e escritórios. O governo federal fechou, impossibilitado de contar com os serviços de seus milhares de funcionários públicos. Somente este ponto facultativo forçado deu um prejuízo de US$ 60 milhões por dia com o pagamento de salários do pessoal. E Andy Woodcock, porta-voz do Serviço de Meteorologia, e que havia anunciado o suposto computador espetacular, teve de sair na defesa da engenhoca através de conferência telefônica de sua casa. Woodcock, assim como milhões de seus conterrâneos, foi pego desprevenido pela nevasca e acabou ilhado pela neve em sua residência.

"Havíamos previsto esta tempestade" insistiu a ISTOÉ o porta-voz do Serviço de Meteorologia. E ninguém duvida desta afirmativa. O que se questiona é a incapacidade da antevisão da intensidade e rapidez da borrasca. E foi por isso que apenas 45% dos estudantes de Estados desde a Geórgia, no Sul, até a Nova Inglaterra, ao Norte, conseguiram chegar às escolas. Estes impetuosos, diga-se, perderam a viagem, já que a maioria dos professores também cabulou as aulas, nas poucas cidades, como Nova York, onde não foi suspensa a rotina letiva. E os que chegaram às salas de aula puderam contar com a sorte. Um casal de crianças em Great Barrington, Massachusetts, se perdeu na tempestade que despejaria 18 polegadas (cerca de 45cm) de neve naquele dia e caiu no rio Housatonic. Apenas o menino foi salvo e os bombeiros ainda procuraram a menina até a quarta-feira 26.

Ao todo, 500 mil pessoas ficaram sem energia elétrica na imensa região da Costa Leste americana. Em Washington, o Capitólio (sede do Congresso) e a Casa Branca se confundiam com a alvura da neve. Em muitas cidades, vários vôos tiveram de ser cancelados. Em Nova York, dois homens morreram de ataques cardíacos, depois de tentar inutilmente vencer a neve e desenterrar seus carros. No Central Park - onde cerca de 16 polegadas (cerca de 40cm) de neve nivelaram o terreno - corajosos pedestres lançaram mão de esquis para trafegar até os escritórios de Midtown. Mães improvisaram veículos infantis com caixotes de papelão, puxados a duras penas diante de um frio de cinco graus negativos. Isso quando não batia o vento de 60 quilômetros por hora, fazendo a temperatura atingir abismais 15 ou 20 graus negativos de sensação térmica. "Desde a grande nevasca, chamada de tempestade do século, em 1996, não se via tamanha fúria de neve", disse a ISTOÉ Al Rocker, o homem do tempo mais popular de Nova York. Envie esta página para um amigo"Nós já estávamos desacostumados com invernos assim. Pensávamos que o efeito estufa nos havia transformado numa terra tropical. Aí vem a natureza e nos mostra nosso lugar no mapa", completa. Cobertas magnificamente de branco, as cidades americanas parecem cenários de contos de fada. Trata-se da chamada beleza do caos.

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