POLÍCIA
| MAX
G.PINTO |
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Orpinelli
matou e violentou cerca de 15 crianças
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Andarilho
da morte
Laerte
conquistava confiança das crianças com balas e pirulitos.
No passeio, violência e monstruosidade
Há 20 dias, o andarilho Laerte Patrocínio Orpinelli,
47 anos, despertava compaixão dos moradores da cidade de
Rio Claro, no interior de São Paulo, e em dezenas de cidades
daquela região pelas quais costumava perambular. Maltrapilho,
cabelos desgrenhados, ele carregava uma sacola de plástico
na mãos com umas poucas mudas de roupa mal-cheirosas. A aparente
fragilidade e a simpatia quase subserviente conquistavam as pessoas
que, penalizadas, decidiam ajudá-lo. "Ele aparecia de
vez em quando no bar. Eu o achava um coitado e com pena dele lhe
dava uns sanduíches", conta o funcionário da
mercearia Dom Bosco, em Piracicaba, Marcos Brito da Silva. Atitudes
como essa eram recorrentes na interminável rota que parecia
seguir. Hoje, Laerte desperta ódio e perplexidade. Friamente,
confessou 11 assassinatos de crianças, entre quatro e dez
anos. Duas outras mortes foram confessadas informalmente à
polícia, até quinta-feira 27. O "Monstro de Rio
Claro", como passou a ser conhecido, gostava de registrar num
pequeno caderno o dia e a cidade por onde passava. A partir das
anotações encontradas, a polícia elaborou um
banco de dados que registra a rota macabra de 26 cidades e 96 crianças
desaparecidas. O andarilho da morte faz questão de dizer
que tem profissão: é engraxador de portas de estabelecimentos
comerciais. Laerte foi preso no município de Leme dia 13,
mas a polícia já estava em seu encalço há
meses. Com o antigo argumento de dar balinhas e doces às
crianças ele conquistava a atenção delas. Abusava
sexualmente, esmurrava e matava. Jéssica Alves Martins, nove
anos, cruzou a rota da morte de Laerte no dia 21 de novembro do
ano passado. Há registro da passagem de Laerte pelo albergue
do município no dia 20. Dois dias depois, o corpo dela foi
encontrado. Em datas e locais diferentes, tiveram o mesmo fim trágico
e violento Daniela Regina de Oliveira Jorge, cinco anos; Alyson
Maurício Nicolau Cristo, seis anos; José Fernando
de Oliveira, nove anos; Osmarina Pereira Barbosa, dez anos; Aline
dos Santos Siqueira, oito anos; e Anderson Jonas da Silva, seis
anos.
O comportamento estranho de Laerte, sétimo filho de uma
família de oito irmãos, todos nascidos em Araras,
começou cedo, com quase a mesma idade de suas vítimas.
Ele cursava o terceiro ano primário e chamou a atenção
de uma professora pelo estranho comportamento. Mal falava, brincava
sozinho e tinha péssimo rendimento escolar. Não conseguia
passar de ano e abandonou os estudos. Nessa mesma época,
deu sinais de que no futuro iria pôr o pé na estrada.
Ficou uma semana fora de casa, sem dar satisfação
aos pais. Para chamar a atenção da família,
batia latas no quintal. Essas atitudes irritavam a mãe, Eliza,
que, numa tentativa desesperada de contê-lo, o amarrava com
pedaços de trapos na beirada da cama ou ao pé da mesa.
Aos 16 anos, inaugurou uma série de internações
na clínica psiquiátrica Sayão. Certa vez ficou
cinco anos direto em tratamento. Às vezes resolvia dar um
tempo por conta própria e fugia. Segundo o diretor da Sayão,
José Carlos Naitz-ke, a família o internava alegando
que ele tinha problemas de alcoolismo. "Não digo que
Laerte tem uma doença mental. Seu diagnóstico clínico
é segredo médico", afirma. Segundo um dos sobrinhos
que preferiu não se identificar, três dos quatro irmãos
são aposentados por alcoolismo. O comportamento arredio e
estranho de Laerte foi se poten-cializando pela crônica desunião
da família. Depois que se casaram, os irmãos nunca
passaram um Natal juntos.
Infantil
"De
vez em quando ele fazia coisas sem nexo como pedir para a minha
mãe que escrevesse cinco cartas para uma mesma pessoa",
conta o sobrinho. Segundo o rapaz, o tio tinha um comportamento
infantil. "Uma vez o vi em casa com um brinquedinho. Pedi para
ver e ele disse: Não. É meu!" Embora com dificuldades
de se relacio-nar com as pessoas, Laerte teve uma namorada. Sidney
Aparecida Martins, 62 anos, conheceu o andarilho em 1983 e chegou
a viver com ele por dois anos e meio. Sidney conta que o maníaco
era agressivo. Eles dormiam em quartos separados e moravam na casa
dela, no bairro de Bela Vista, próximo ao Horto Florestal,
onde foram encontradas duas ossadas de crianças mortas por
Laerte. "Ele ficava agitado. Saía de manhã e
só voltava à noite. Nunca vi dinheiro com ele. Sabia
que era alcoólatra, mas desconhecia o fato de ele ter problemas
psiquiátricos", reagiu Sidney sem saber explicar o comportamento
cruel e monstruoso do companheiro.
| Laerte conversou com ISTOÉ duas vezes.
Na primeira, mostrou seu lado pouco tolerante, irritadiço
e encerrou a entrevista quase aos berros. Na segunda,
parecia outra pessoa. Mostrou-se risonho, gentil.
Chegou a pedir uma camisa nova e alguns "salgadinhos".
ISTOÉ - Por que matar crianças?
Laerte - Eu gosto de ver o corpinho
delas. Gosto da beleza que elas têm.
ISTOÉ - O que te atrai nelas?
Laerte - Gosto de um jeito diferente.
ISTOÉ - Sexual?
Laerte - É.
ISTOÉ - Por que decide seduzi-las?
Laerte - Quando bebo incorporo o Satã,
fico nervoso e sinto esse desejo. Sinto prazer
em vê-las aterrorizadas.
ISTOÉ - E como você as escolhe?
Laerte - É depois de beber.
Começa a sessão de violência.
Eu vejo crianças e me dá vontade
de fazer desordens.
ISTOÉ - Há quanto tempo você
começou a matar?
Laerte - Há uns cinco ou seis anos.
ISTOÉ - E você matou adulto
também? Mulheres?
Laerte - (Ri) Não. Nunca. Só
crianças.
ISTOÉ - Quantas crianças você
calcula ter matado?
Laerte - Umas 15 no total.
ISTOÉ - Você não achava
que um dia poderia ser pego?
Laerte - Sabia que um dia ou outro a polícia
ia me pegar, mas não me preocupava.
ISTOÉ - Você está arrependido?
Laerte - Estou. Quero me tratar.
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