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Quem é o autor afinal?
I BIENAL MERCOSULI Bienal Mercosul
De 2 de outubro a 30 de novembro em Porto Alegre

Pedreiro cria e executa obra na Bienal.


“Todo homem é um artista”, já dizia Joseph Beuys. O pedreiro Máximo de Souza Vieira, 43 anos, corrobora a afirmação de Beuys: tornou-se o artista plástico da semana na 1ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Desde sexta-feira à tarde, Máximo usufrui de seus 15 minutos de fama. Sua obra de arte – uma imensa cuia, um banco de praça e um cercado – foi ianugurada segunda, ao meio-dia, no Largo Glênio Peres.

A cuia de Máximo VieiraTudo começou com um anúncio nos classificados do jornal. Os artistas plásticos uruguaios Eduardo Cardozo e Fernando Peirano pretendiam selecionar um operário para planejar e executar uma obra de arte em frente ao Mercado Público, usando apenas cimento e tijolo. O tema era de livre escolha. A parte que cabia aos uruguaios já estava feita: conceber a idéia de fazer alguém executar uma escultura, num tempo determinado, como se fosse um emprego temporário.

A idéia/obra recebeu o nome sugestivo de Intervencion? Contrato de Trabajo? Entre os oito candidatos que se apresentaram na Fundação Bienal na segunda-feira, Máximo foi o selecionado. Na terça, firmou contrato com os artistas e o presidente da Fundação Bienal, Justo Werlang. Pelo papel, estipulou-se que o operário receberia R$ 0,15 por dois tijolos utilizados na construção da escultura. “Quanto mais tijolos ele colocar, mais ele ganha”, explica Eduardo Cardozo. “Com isso, cria-se uma angústia no operário.”

Três mil tijolos e uma boa quantidade de argamassa foram colocados à disposição de Máximo. Do total, ele usou cerca da metade. “Não me preocupei em colocar uma maior quantidade para ganhar mais, queria fazer algo bonito”, ressalta. Na família, ninguém tinha idéia do que Máximo estava preparando (aliás, até ontem à tarde, nem mulher, nem qualquer outro parente, havia visto a obra). “Escolhi a cuia porque é um símbolo da cultura gaúcha e eu queria homenagear o nosso Estado”, explica. No domingo ao meio-dia, com o trabalho quase concluído, Máximo fez uma autocrítica: “Não ficou muito bem-acabado, preferi usar mais material para manter a cuia firme do que, de repente, cair isso tudo na cabeça de uma pessoa.”

A obra Intervencion? Contrato de Trabajo? será assinada por quem? Pelos artistas plásticos uruguaios Eduardo Cardozo e Fernando Peirano, que tiveram a idéia? Ou pelo pedreiro Máximo de Souza Vieira, que concebeu e executou a obra? Os uruguaios não respondem, enrolam e se justificam: “Essa é uma obra conceitual”. Tá, e daí? Segundo os próprios, eles são os responsáveis pela concepção do todo, desde o anúncio colocado no jornal (a obra começa nesse ponto) até a inauguração no Largo Glênio Peres.

O que sobra para Máximo, que, querendo ou não, foi quem fez a peça da arte? Não é segredo que na arte contemporânea, com as grandes esculturas, não é mais o artista que realiza sua obra (ou alguém acreditava que o próprio Franz Weissman torcia enormes pedaços de ferro e alumínio?). Tomie Othake, para citar um exemplo, faz uma maquete de seu trabalho em arames de varal e entrega para uma fábrica montar no tamanho e cor determinados. Para garantir a perfeita execução da obra, ela fica na cola do ferreiro. Entretanto, no caso de Intervencion? Contrato de Trabajo?, os uruguaios foram mais longe. Eles não apresentaram um projeto para Máximo construir. O pedreiro criou uma obra. “Queremos que as pessoas pensem onde está o artista. Há um conflito na arte contemporânea entre quem faz a obra e quem tem a idéia. E é isso que queremos mostrar”, explica Cardozo. Peirano sintetiza: “Isso é uma provocação. É uma discussão sobre os limites da arte”. Mas quem é o autor, afinal? “Não tenho resposta”, diz Cardozo, rindo, depois de uma pausa.

Verônica Stigger - Agência RBS



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